Governo egípcio contém manifestações populares contra presidente
DIOGO BERCITO
CAIRO, EGITO (FOLHAPRESS) - O governo egípcio conteve com sucesso, nesta segunda-feira (25), as manifestações populares contra o presidente Abdel Fattah al-Sisi, eleito em 2014 após o golpe militar contra o presidente islamita Mohammed Mursi.
Durante a manhã, havia expectativa de que os protestos reunissem multidões, como aqueles do último dia 15. Mas um ostensivo aparato militar nas ruas, aliado a caças e helicópteros rondando os céus durante todo o dia, aparentemente desincentivaram parte dos manifestantes.
Alguns dos pontos em que se esperava aglomerações foram bloqueados pelas forças de segurança. Em outros, centenas de pessoas foram dispersadas por disparos de gás lacrimogêneo. Dezenas foram detidas durante os protestos, incluindo jornalistas estrangeiros -esses foram rapidamente libertados.
Manifestações a favor do presidente Sisi, no entanto, foram permitidas e seguiram sem incidentes, exceto discussões com opositores nas ruas. A reportagem testemunhou debates acalorados nas imediações da praça Talaat Harb, no centro.
Os protestos foram convocados, a princípio, contra a recente entrega de duas ilhas egípcias no mar Vermelho à monarquia saudita, ainda pendente de ratificação pelo Parlamento local. Foi essa questão que motivou as manifestações do último dia 15. As demonstrações coincidiram, também, com a data da retirada israelense da península do Sinai, em 1982.
Mas a insatisfação popular tem bases mais profundas, entre uma severa crise econômica e uma crescente repressão nas ruas do país. "O governo está prendendo nossa juventude", afirmou a ativista Hala Mostafa, antes dos protestos. Nos últimos dias, as autoridades egípcias detiveram dezenas de pessoas em cafés e nas ruas do Cairo, como prevenção diante das manifestações desta segunda-feira.
"Vamos às ruas dizer que não vamos permanecer em silêncio", disse Mostafa, que lidera uma rede de proteção aos direitos das mulheres.
George Ishak, fundador do movimento de oposição Kefaya durante o regime de Hosni Mubarak, afirmou à reportagem que a maneira com que o governo está detendo ativistas é ilegal. "Estão prendendo pessoas sem motivo. As manifestações estão previstas na Constituição, são permitidas", disse.
Ishak é hoje parte do Conselho Nacional para os Direitos Humanos, afiliado ao governo. Ele pede que as forças de segurança sigam a lei e notifiquem a prisão de ativistas em até 24 horas, permitindo a visita de advogados -um ritual que não vem sendo cumprido nos últimos anos.
Internacionalmente, o governo Sisi enfrenta uma grave pressão desde a morte do estudante italiano Giulio Regeni. O corpo de Regeni, doutorando em Cambridge, foi encontrado em fevereiro com o que ativistas afirmam ser marcas de tortura. O governo egípcio ainda não ofereceu explicações convincentes para a morte do europeu.
