Terremoto no Equador forçará cidade turística a mudar perfil econômico
DIEGO ZERBATO, ENVIADO ESPECIAL
PEDERNALES, EQUADOR (FOLHAPRESS) - A 300 km de Quito, Pedernales era a praia dos moradores da capital equatoriana e também de Guayaquil. A cidade e os balneários vizinhos atraíam turistas e o dinheiro de famílias e investidores.
A cidade mais afetada pelo terremoto do último sábado (16) viverá, a partir de agora, um desafio duplo. Depois de contar os mortos, que até agora são 172 só em Pedernales, seus moradores terão que lidar não apenas com a reconstrução, mas com a interrupção do turismo por tempo indeterminado ou a mudança de perfil econômico.
A perspectiva preocupa os pequenos comerciantes que investiram seu dinheiro em restaurantes e serviços. "Pedernales vai ter que começar do zero. O turismo só deve voltar em uns dez anos e não tenho ideia de como vai ser", disse David Mendoza, 52, dono de um balneário e uma quitanda em frente ao mar.
Sem trabalho desde o terremoto, os pescadores José Gabriel Gamelozo, 64, e Emilio Vilela, 51, não sabem de onde vão tirar o seu sustento nos próximos dias. Eles foram impedidos de ir ao mar para pescar camarão porque a Capitania dos Portos proibiu a navegação devido ao risco de tsunami.
A produção deles era dividida entre os restaurantes da região e as processadoras de frutos do mar. Agora, só restará a segunda opção. "Não conseguimos gasolina, não há mais hotéis e as fábricas estão fechadas. De que vamos viver?", disse Gamelozo, cujo sobrinho sofreu duas fraturas quando um muro caiu sobre ele durante o tremor.
Eles afirmam não terem recebido a ajuda do governo até o momento. Já Maria José Palacios, cuja família tinha dois hotéis, reclama da falta de segurança e dos saques. "Tive que contratar seguranças para impedir o roubo do que sobrou", lamenta.
Assim como no resto da cidade, poucas construções restaram de pé na orla. Os quiosques, feitos de madeira e palha, foram os mais afetados.
Na manhã desta quinta (21), a reportagem viu só um restaurante aberto, servindo comida aos policiais que terminavam seu turno de trabalho na segurança da cidade.
Por lá, o cheiro de lixo e dos corpos em composição, presente em toda a cidade, era amenizado pelo vento e a maresia da praia, que lembra também que a tragédia poderia ter sido pior. O terremoto não teve força para formar um tsunami.
SOCORRO
A madrugada desta quinta foi a primeira desde o terremoto em que não houve réplicas em Pedernales. Isso não significa, porém, que a população esteja tranquila. Muitas pessoas ainda dormiram nas ruas e no ginásio de esportes, improvisado como abrigo.
A trégua durou pouco. Por volta das 22h desta quinta (0h de sexta em Brasília), o Equador foi atingido por um novo tremor, de magnitude 6,0. O epicentro foi no mar, a 23 km de Bahía de Caraquez, cidade no meio do caminho entre Manta e Pedernales.
O calor de 30 graus e a alta umidade favorecem a proliferação de mosquitos e moscas. As autoridades se preparam para a disseminação de doenças na próxima semana.
Na estrada costeira que leva às praias ao sul da cidade, os moradores dos vilarejos pediam socorro. À região ainda não chegaram as doações de comida, água e roupas que vêm do resto do país.
Com cartazes, bandeiras feitas de camisetas e até cordas, eles fecham a passagem em busca de mantimentos. Dinheiro neste caso tem pouca serventia, já que os mercados abertos mais próximos estão em San Vicente, a quase 100 km dali.
A maioria dos grupos monta acampamento com barracas de lona preta e bambu ao lado de suas antigas casas, derrubadas pelo tremor, ou então em outro ponto da estrada. Um deles acabou escolhendo a calçada de um condomínio de luxo que foi lançado meses atrás.
Em outro, pessoas buscavam roupas que lhe serviam em um saco de doações recém-chegado. Um homem escolheu entre algumas peças uma camiseta do Grêmio, time que na quarta homenageou as vítimas da tragédia.
A dificuldade para conseguir comida não é exclusividade da região de Pedernales. Mais de 3.000 pessoas formaram filas na orla de Tarqui, bairro de Manta, em busca de ajuda humanitária.
Nesta quinta (21), chegaram à cidade dois caminhões do Programa Mundial de Alimentos da ONU, escoltados todo o tempo pela polícia devido ao temor a saques.
