Animações revelam drama vivido por crianças refugiadas sírias
JOHANNA NUBLAT
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pequena Ivine aparece sob uma mesa, se protegendo de um bombardeio na Síria. Segurando a mão da mãe e agarrada a seu travesseiro, a menina sai andando pelas ruas arrasadas, cobertas de poças sangue.
Depois de atravessar o mar, a floresta e o deserto, já abrigada em um campo de refugiados, Ivine, 14, conta sobre seus pesadelos e sobre como acordava com o pequeno travesseiro "molhado de lágrimas".
"A história de Ivine e o travesseiro - uma viagem partindo da Síria" é uma das três animações lançadas pelo Unicef (braço da ONU para a infância), nesta terça-feira (29).
Os três desenhos partem de histórias reais de crianças refugiadas sírias e integram a campanha "Unfairy Tales", um jogo de palavras com "conto de fadas" e "injustiça".
Os vídeos são, justamente, o oposto de um conto de fadas e lançam a mensagem que "algumas histórias não são para crianças".
A proposta do Unicef é gerar percepções positivas em torno das milhares de crianças refugiadas e imigrantes -não especificamente nacionais da Síria.
"'Unfairy Tales' faz parte da iniciativa #actofhumanity [ato de humanidade], que enfatiza que crianças são crianças, não importa de onde venham. E que todas as crianças merecem uma chance", informa o Unicef em seu site.
Estima-se que quase 500 mil pessoas tenham morrido na guerra civil síria, que já dura cinco anos. Além das mortes e da destruição do país, o conflito abriu espaço para o Estado Islâmico e gerou uma grave crise migratória na Europa.
Segundo o Unicef, pelo menos 65 milhões de crianças e jovens estão em migração no mundo, seja escapando áreas de conflito, pobreza ou clima severo.
"NÃO HÁ NINGUÉM"
Assim como Ivine, o sírio Mustafa -da animação "Mustafa dá um passeio"- tem 14 anos. A animação conta como ele teve que deixar para trás seus brinquedos e como sente muita falta dos amigos.
"Com quem vou fazer amigos? Não há ninguém", diz o próprio garoto ao final da animação.
O terceiro vídeo conta o que já viveu Malak -"Malak e o barco".
Do alto de seus 7 anos, a garotinha relata que, durante a travessia irregular no mar, passou "muito, muito frio" e ficou com "muito, muito, muito medo".
Enquanto Malak conta sobre o temor de naufragar com a mãe, o oceano vira um grande polvo malvado e assustador.
A história de Malak foi divulgada pelo Unicef em fevereiro, num pré-lançamento da campanha "Unfairy Tales". Nenhuma das três crianças é identificada com os sobrenomes.
BRASILEIROS
As animações foram concebidas e produzidas pela agência de publicidade americana 180LA, como cortesia para o Unicef, com a participação de brasileiros na direção executiva de criação das três peças e na elaboração de dois dos desenhos -pelas casas de animação Consulado e House of Colors.
"Todo mundo gosta de politizar sobre o que acontece com os refugiados", diz Rafael Rizuto, da 180LA e um dos diretores executivos de criação. "Dizem que [os refugiados] vão roubar empregos, há o terrorismo. Mas as pessoas esquecem que é uma crise humanitária, com 8 milhões de crianças. A gente quis que a criança fosse mais que um número."
Eduardo Marques, também da agência e diretor executivo de criação, lembra do episódio do menino Alan Kurdi, 3, que morreu na tentativa de atravessar para a Grécia, como um momento em que a crise migratória ganhou destaque como uma tragédia humanitária. "[Com a campanha] a gente humanizou, nos aproximando de uma forma bonita, infantil."
Rizuto pondera que a campanha mostra que ainda há muito o que ser feito. "No final das animações, quando você vê a criança, você percebe que a história não acabou ainda. Não tem um final feliz."
