Campinas afasta professor que usou saia em ato sobre a questão do gênero
VENCESLAU BORLINA FILHO
CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Usando uma saia e carregando uma faixa que dizia "Já raiou a liberdade" durante o desfile do Sete de Setembro, o professor de geografia Vitor Pelegrin, 30, quis chamar a atenção para a discussão sobre gênero nas escolas, tema que estava em debate na Câmara de Campinas.
Seis meses depois, a prefeitura decidiu afastá-lo das funções, sem prejuízo do salário, para apurar os fatos.
Pelegrin acusa a prefeitura de perseguição e preconceito. Ele está afastado desde o último dia 11 da escola municipal Zeferino Vaz, e seus alunos estão, até agora, sem aula de geografia.
Os estudantes já fizeram uma manifestação. Em redes sociais, homens têm postado fotos de saia com a hashtag #SaiaSemPreconceito.
"A justificativa para a abertura do processo foi subjetiva e demonstra conservadorismo com que o está previsto nas diretrizes educacionais do município", diz Pelegrin.
A secretária da Educação de Campinas, Solange Pelicer, negou perseguição ou preconceito. Disse que um processo administrativo foi aberto após a reclamação de pais de alunos sobre a manifestação, que, segundo ela, não estava autorizada.
O afastamento, diz, foi a pedido da direção da escola, porque o professor queria discutir seu processo nas reuniões de planejamento pedagógico. O professor nega.
CAMISETAS
Segundo a secretária, próximo do palco onde estavam as autoridades, Pelegrin e uma outra professora entraram no meio do desfile com a faixa. Os alunos, então, tiraram os uniformes para exibir camisetas com frases de combate ao preconceito e pelo fim da violência à mulher.
Ela afirma ainda que a manifestação não estava prevista e não era de conhecimento da direção. Pelegrin e outras duas professores ouvidas pela reportagem dizem que o ato era de conhecimento da direção, que nega.
As professoras de arte Livian Matos Soares Fernandes, 28, e Ana Carolina de Araújo, 26, também participaram do protesto e dizem que era um desdobramento do trabalho realizado dentro de sala de aula, sobre educação e respeito aos gêneros.
Elas, porém, dizem não saber se respondem a algum processo administrativo. A prefeitura diz que a investigação inclui uma professora, mas não revela o nome.
No ano passado, vereadores da base aliada ao prefeito Jonas Donizette (PSB) tentaram aprovar um projeto que impedia qualquer discussão de gênero nas escolas.
Vereadores ligados às bancadas religiosas afirmam que a expressão "ideologia de gênero" deturparia os conceitos de homem e mulher, destruindo o modelo tradicional de família. Outros, porém, defendiam que as escolas precisam estar preparadas para combater a discriminação.
Após polêmica, o projeto foi arquivado.
