Vice de Maduro pede à Assembleia extensão de decreto econômico
SAMY ADGHIRNI
CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) - O vice-presidente da Venezuela, Aristóbulo Istúriz, pediu nesta terça-feira (15) à Assembleia Nacional, controlada pela oposição, que aprove a extensão por mais 60 dias de um controverso decreto de emergência econômica implantado há dois meses para radicalizar políticas chavistas.
O pedido de Istúriz é simbólico já que a prorrogação da medida já está publicada no Diário Oficial. Mesmo assim, o Parlamento tem até sexta-feira (18) para se pronunciar.
O decreto foi implementado à revelia da Assembleia Nacional, que o havia rejeitado por considerá-lo parte das mesmas políticas que levaram o país ao atual cenário de desabastecimento, recessão e inflação de três dígitos.
"Queria que pudéssemos nos entender e conversar. Queria ver uma Assembleia Nacional dizendo 'apoiamos esta medida de Nicolás Maduro porque é boa para o povo'", disse o vice-presidente.
Istúriz, porém, irritou deputados opositores ao repetir a tese governista de que os problemas do país são causados por uma suposta "guerra econômica" travada por empresários e conspiradores, e não pelos rígidos controles de câmbio e de preços que minam a produção.
O vice-presidente disse que boa parte do desabastecimento é "induzido". Ele também afirmou que a inflação, avaliada pelo FMI em 270%, é causada principalmente pelo site Dolar Today, administrado por opositores venezuelanos baseados nos EUA, que divulga a cotação do câmbio paralelo.
Um dólar nas casas de câmbio é trocado por 225 bolívares. No paralelo, um dólar vale mais de 1.200 bolívares.
Questionado por deputados opositores, Istúriz se negou a explicar como a Venezuela reembolsará seus títulos da dívida soberana.
O vice-presidente também insistiu em que a Venezuela precisa voltar a produzir para não depender tanto das exportações de petróleo, responsáveis por 96% de suas receitas em divisas.
CONTESTAÇÃO
Istúriz foi vigorosamente contestado por deputados opositores, e não há sinais de que a bancada antichavista dará ao decreto de emergência o respaldo político solicitado pelo Executivo.
O decreto havia sido formalmente pedido por Maduro no dia 14 de janeiro, pouco mais de um mês depois de a crise econômica ter levado os venezuelanos a votar em massa pela oposição na eleição parlamentar.
Diante da rejeição da medida pelo Parlamento, o Executivo recorreu ao aliado Tribunal Superior de Justiça (TSJ, corte suprema), que considerou o decreto válido.
A medida permite adotar medidas econômicas sem consultar o Parlamento e dá carta branca ao governo para expropriar empresas e bens privados sob a justificativa de que a gravidade da crise exige a mobilização de todos os recursos possíveis para aprimorar a produção e distribuição.
O pacote também ampara imposições aos bancos para restringir saques em dinheiro e câmbio em dólar, o que gera temores de um "corralito".
Segundo críticos, a manobra busca radicalizar o modelo chavista de controles da economia e hostilidade ao setor produtivo, que muitos enxergam como responsável pela grave crise no país.
