Livro de ocorrências de hospital no Rio contradiz prefeito Eduardo Paes
LUCAS VETTORAZZO
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O livro de ocorrências do hospital municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, contradiz o que disse o prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes, a respeito de um desentendimento que teve com funcionários da unidade na noite do último domingo (15).
O prefeito teve uma emergência com seu filho de 11 anos. Inicialmente a criança foi levada pela esposa de Paes a um hospital particular, mas como o local estava cheio, a levou para o hospital público.
O prefeito declarou que seu filho foi muito bem atendido, mas disse que ouviu de pacientes que aguardavam atendimento reclamações quanto à postura da equipe de médicos funcionários e fez críticas.
O Sindicato dos Médicos do Rio, contudo, apresentou outra versão. Paes teria sido grosseiro com a chefe de plantão por seu filho não ter recebido tratamento diferenciado. Ele teria ficado irritado porque a médica teria pedido o documento de identidade da criança para abertura da ficha de atendimento, procedimento que é praxe.
'GROSSEIRO'
A página 25 do livro de ocorrências do plantão do hospital registra que a equipe teve "um momento de indisposição com o prefeito", que foi "bastante grosseiro" com os profissionais de saúde.
O documento foi enviado à Folha de S.Paulo pelo presidente do Sindmed-RJ (Sindicato dos Médicos do Rio), Jorge Darze, e será usado como prova no processo de assédio moral que será aberto contra o prefeito na Justiça do Trabalho. A reportagem checou com um funcionário com cargo de chefia no hospital -e confirmou que o documento é autêntico.
A ocorrência, escrita a mão pela chefe de plantão, cujo nome foi omitido pela fonte, registra que Paes começou a gritar de forma ríspida, quando foi solicitado à mãe da criança que preenchesse a fica de atendimento.
O prefeito, segundo o registro, teria gritado enquanto seu filho era deitado em uma maca para avaliação de seu caso pela cirurgiã de plantão.
"Neste momento, o senhor prefeito começou a gritar de forma ríspida, enquanto deitávamos seu filho para ser avaliado pela cirurgiã de plantão. [Ele] Disse que a médica não sabia fazer atendimento -e que ele agora não estava falando como cidadão e sim como prefeito, seu patrão- e a demitiu", registra o livro de ocorrências do hospital.
Ainda segundo o boletim, após ter ficado "sem graça e constrangida", a médica teria respondido que "exerce e sempre exerceu seu papel de excelente médica", ao que Paes teria respondido que a funcionária "não irá trabalhar mais em nenhuma unidade do município do Rio".
SEM DETALHES
Quando falou sobre o assunto, na última segunda, Paes não deu detalhes quanto a gravidade do ferimento de seu filho. Disse apenas que ele se machucou em uma partida de hóquei.
Segundo Darze, a criança estava estável e sem correr risco de morte. Não haveria, portanto, ainda de acordo com o sindicalista, motivo para o menino ser atendido antes dos outros -o que, segundo o presidente do sindicato, parecia ser a intenção do prefeito.
Paes afirmou que, após as críticas, a médica teria pedido demissão. O sindicato afirma que ela tirou uma semana de folga, está muito abalada, mas não foi desligada, tampouco teria pedido desligamento.
A reportagem entrou em contato com a médica em questão, mas ainda não obteve resposta. Também procurada, a Prefeitura do Rio não se pronunciou ainda.
