Merkel reconhece rejeição, mas diz que não mudará política de refugiados
JULIANO MACHADO
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, disse nesta segunda-feira (14) que a derrota de seu partido em duas das três eleições estaduais deste domingo (13) foi um "dia difícil para a CDU [União Democrata Cristã]".
Ela reconheceu que a rejeição de parte do eleitorado alemão à sua política de refugiados teve peso no revés, mas afirmou que não mudará seu rumo. "Em princípio vou continuar a fazer o que fiz nos últimos meses."
Para Merkel, a ascensão significativa do partido populista de direita e antirrefugiados Alternativa para a Alemanha (AfD) é um "problema", mas não um "problema existencial da CDU".
No pleito deste domingo, o AfD conseguiu votos para ter representantes nos Parlamentos dos três Estados que foram às urnas —Baden-Württemberg, Renânia-Palatinado e Saxônia-Anhalt.
Neste último, seu desempenho surpreendeu o país. Com 24% dos votos, obteve a segunda maior bancada, ofuscando a vitória da CDU, que terá de fazer alianças para governar na Saxônia-Anhalt.
A reação de Merkel voltou a irritar os aliados da CDU e também da legenda-irmã União Social Cristã (CSU), que atua na Baviera.
O governador do Estado, Horst Seehofer (CSU), disse que, após os resultados do domingo, "a resposta à população não pode ser: 'vamos seguir do mesmo jeito, como estava'".
A chanceler criticou a falta de unidade de sua base: "Diferenças entre CDU e CSU são difíceis de se assimilar pelo eleitor."
CENÁRIO PARA MERKEL E AFD
Dois especialistas ouvidos pela Folha relativizam a dimensão do prejuízo das eleições regionais para a imagem de Merkel.
Para o professor de ciência política e pesquisador de eleições Thorsten Faas, é preciso lembrar que os dois vencedores em Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado, ainda que não sejam da CDU, apoiavam o modo como a chanceler lida com os cerca de 1,2 milhão de refugiados no país.
"Mas ela tem de buscar, sim, a unificação do discurso dentro da CDU. Os resultados foram um alerta que os partidos tradicionais não poderão ignorar para as eleições federais em 2017."
O pesquisador Carsten Koschmieder, da Universidade Livre de Berlim, também aponta para a vitória dos "pró-refugiados" como motivo para Merkel não fazer grandes mudanças. "E ela já busca há algum tempo diminuir o fluxo migratório", afirma.
Tanto Faas quanto Koschmieder são cautelosos em relação ao futuro do AfD, especialmente no âmbito nacional -a sigla, criada há três anos, ainda não tem cadeiras no Bundestag, o Parlamento alemão.
"Partidos populistas costumam 'travar' na hora de fazer políticas construtivas. O AfD precisa mostrar se consegue 'entregar'", afirma Faas.
Já Koschmieder diz não crer que, mesmo com o tema dos refugiados perdurando no debate político, o AfD ultrapasse 10% das preferências em pesquisas nacionais.
"Frauke Petry [líder do AfD e figura ascendente na política alemã] não será chanceler porque há poucas opções de coalizão", afirma.
