Lojista pega empréstimo, compra alimentos e perde tudo na enchente
LEANDRO MACHADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Moradores de Caieiras, na Grande São Paulo, ainda contabilizam os prejuízos da enchente que atingiu a região na última sexta-feira (11) - até domingo (13), eram 25 os mortos no Estado em razão das chuvas.
Eles reclamam, ainda, de não terem sido avisados da abertura das comportas de uma represa pela Sabesp.
Naquela noite, a companhia de saneamento abriu uma barragem quando uma das represas do Cantareira subiu rapidamente de 35 para 99% da capacidade. A Sabesp afirma que "evitou uma tragédia" com a ação. Isso porque, segundo a empresa, a barragem corria risco de se romper.
Tragédia por tragédia, a comerciante Rose Souza, 49, acredita estar vivendo uma. Perdeu tudo quando a companhia decidiu liberar a água da represa. O bairro dela, o Jardim São Francisco, é uma espécie de vale. A água inundou tudo e chegou a três metrô de altura.
Rose perdeu seis freezeres, duas geladeiras, mesas, cadeiras e todo o estoque da lanchonete que toca com o filho e o marido.
Naquele dia, havia conseguido um empréstimo de R$ 5.000 no Banco do Povo para reabastecer a despensa do restaurante, única fonte de renda da família.
Com o empréstimo, comprou ingredientes, carnes, frango e bebidas. Tudo isso a água também levou.
"No ano passado, o governo pediu para economizarmos água", conta. "Depois, apertaram um botão e despejaram essa água toda na nossa cabeça. Nem se deram o trabalho de avisar. Daria tempo de salvar minha lanchonete. Perdi tudo", diz.
TEIMOSOS
Quase tudo, porque a família se arriscou para salvar o computador e as máquinas de cartão de crédito. "Fomos teimosos. Se eu perdesse isso, era mais de R$ 15 mil", diz a comerciante.
Nesta segunda (14), amigos levavam alimentos para a loja, a fim de tentar aumentar o estoque de Rose. "Como vou fazer lanches sem nada?".
Sem quase nada ficou a loja de Richele Coutinho, 30. O estabelecimento, que constrói calhas, virou um aquário de água barrenta. A água chegou ao escritório, no segundo andar.
Máquinas de cortar ferro, computadores, equipamentos, ferramentas e quatro carros viraram objetos subaquáticos quando a água inundou o local.
"Você é um empresário. Luta para as coisas andarem. Ai, num minuto, perde tudo. Não tocaram nem uma sirene avisando que liberariam a represa. Em 40 minutos eu salvaria várias coisas", diz.
Ela calcula os prejuízos em mais de R$ 100 mil. Da loja, Richele só não perdeu o cachorro que ajudava na segurança. Ele subiu no segundo andar e se salvou.
