Em Goiás, alunos de escolas ocupadas pedem doações para a ceia de Natal
DIENE BATISTA
GOIÂNIA, GO (FOLHAPRESS) - Estudantes secundaristas das 23 escolas ocupadas desde o início do mês em Goiás passarão o Natal longe de casa -mas a fartura da ceia dependerá das doações da comunidade.
Os ocupantes afirmam que ficarão nas unidades até que o governador Marconi Perillo (PSDB) recue do projeto de repassar a gestão das escolas para Organizações Sociais (OS), entidades sem fins lucrativos que recebem recursos do Estado para administrar os colégios.
Nesta terça (22), o grupo Secundaristas em Luta realizou em Goiânia a primeira manifestação contra o que chamam de "terceirização da educação" após as ocupações. A 23ª escola também foi tomada pelos alunos, em São Luís de Montes Belos (a 127 km da capital).
As outras escolas ocupadas estão em Goiânia (12 escolas), Anápolis (6), Aparecida de Goiânia (3) e Cidade de Goiás (1).
No Colégio Estadual Cecília Meirelles, em Aparecida de Goiânia, alunos pedem alimentos para a ceia de Natal na "fanpage" da ocupação. "Queremos arranjar até um pernil", disse o estudante Brenno Henrique, 17. O grupo também procura bandas para apresentações no local.
O secundarista diz que a ocupação só terminará quando o governo estadual voltar atrás. "Educação pública é direito nosso e dever do governo", afirma. "Demos um tiro na perna do governo (com as ocupações)."
Para o secundarista Marcos Fonseca, um dos ocupantes do Colégio Polivalente Frei João Batista, em Anápolis, as festas de fim de ano são uma oportunidade para o movimento obter apoio da comunidade.
"Qualquer alimento será bem-vindo. Se não chegar, faremos um jantar simples. O que importa é mostrar ao governo que somos um movimento sério, sólido", diz.
Em Goiânia, os alunos que tomaram o Colégio Estadual Ismael Silva de Jesus pretendem abrir os portões para quem quiser cear com os ocupantes. "Mães falaram que vão fazer um lombo, outros estão falando em fazer comida vegetariana", diz o professor da rede estadual Matheus Arcanjo, 22, apoiador da ocupação.
Na escola ocupada na cidade de Goiás, o Colégio Aplicação Professor Manuel Caiado, o Natal deve ter oficinas, além de uma ceia comunitária. Os cerca de 30 alunos pedem doação de frutas, sucos e refrigerantes.
INSPIRAÇÃO E ORIENTAÇÃO
Segundo dois estudantes ouvidos pela Folha, alunos de São Paulo que frearam a reorganização das escolas proposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) estiveram em Goiás, no fim de semana, para dividir sua experiência.
Como em São Paulo, a reclamação em Goiás é de falta de diálogo. "OS foi imposição. Não foi uma discussão em escolas. (O governo) Colocou isso sem discutir com nenhum estudante, com ninguém. Se o governo não vai recuar, nós também não vamos", diz o secundarista Brenno Henrique.
Os alunos também querem o fim da militarização escolar. Só em outubro deste ano, oito escolas passaram para a gestão da Secretaria de Segurança Pública. Assim como no caso das OS, a parte pedagógica ficaria sob a responsabilidade da Educação.
APOIO DA COMUNIDADE
Depois de três dias de negociações, a reportagem acompanhou um debate sobre o projeto das OS no Colégio Cecília Meirelles, na segunda (21). No interior, cartazes propõem horários para a realização das atividades, e alimentos doados pela comunidade são organizados no refeitório.
Cerca de 30 pessoas, entre alunos, pais, comunidade e professores universitários, se reuniram na quadra de esportes. O educador Cláudio Augusto de Araújo, 43, se dispôs a ministrar aulas de música. "Dou os parabéns à turma da ocupação, estimulando o diálogo. Esse momento já é uma conquista", afirmou.
Para Lucas Maia, do Instituto Federal de Educação (IFG), as OS são inconstitucionais. "Existe um artigo na Lei de Diretrizes e Bases da Educação que diz que a comunidade deve escolher quem vai ser o gestor da escola. O Estado descumpre a lei para seguir o interesse de empresas privadas", disse.
Em nota enviada à Folha, a Secretaria de Educação reafirmou que sempre esteve aberta ao diálogo e que foi realizada "uma extensa programação de encontros para esclarecer a sociedade sobre o novo modelo de gestão".
Ainda de acordo com a pasta, com a ocupação de escolas, a própria secretária, superintendentes e subsecretários regionais estiveram nas unidades. A pasta também diz utilizar as redes para responder perguntas da população.
Em conversa com internautas realizada nesta quarta (23), no YouTube, o governador Marconi Perillo defendeu o repasse da gestão das escolas estaduais para as OS. Ele afirmou que o modelo dará "oportunidade para os filhos dos pobres, para que eles tenham acesso a ensino público de qualidade e para que a qualificação resulte em acesso a boas universidades e, posteriormente, ao mercado de trabalho".
O tucano, que está no quarto mandato de governador, afirmou ainda que "jamais proporia uma mudança que não fosse para o bem" e disse que o debate em torno das OS está sendo desvirtuado por adversários políticos. "Há o debate radical contra, de pessoas de fora das escolas, que não querem acabar com o status quo, com corporativismo e sindicalismo."
