ONGs pressionam por mais proteção a países ameaçados pelo clima
MARCELO LEITE E LEANDRO COLON, ENVIADOS ESPECIAIS
PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Conferências sobre mudança climática, como esta COP21 em Paris, têm pelo menos 90% de jogo de cena. Nesta quinta-feira (10), a 32 horas de encerrar-se o prazo oficial do encontro, ONGs internacionais deram seu show para pressionar os negociadores.
"Parem de jogar pôquer político com o futuro de nossos filhos", disparou Kumi Naidoo, do Greenpeace, na entrevista coletiva realizada pela manhã, cinco horas antes do prazo marcado para as delegações debaterem uma nova versão do texto do acordo almejado.
Além do Greenpeace falaram Oxfam, WWF, Action Aid, Environmental Defense Fund, Christian Aid e Climate Action Network, entre outras. Vários oradores assinalaram que quinta-feira marcava o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.
Para as ONGs, os direitos das populações mais pobres e mais ameaçadas pela mudança do clima não foram ainda adequadamente reconhecidos no texto provisório do acordo. Elas destacam duas questões --fundos para perdas e danos e para adaptação-- que tendem a ficar à margem.
O termo "perdas e danos" se refere ao ressarcimento por desastres causados pelo aquecimento global, como a inundação de pequenas ilhas pela elevação do nível do mar. Estados Unidos e União Europeia não querem nem ouvir falar nisso.
Adaptação diz respeito aos ajustes para enfrentar a mudança climática já ocorrida e a que ainda virá, por força do CO2 lançado até aqui na atmosfera. ONGs e países pobres insistem em que haja financiamento específico dos ricos para isso, separado do dinheiro para ajudar no corte de emissões.
AMBICIOSOS
As ONGs favorecem a consagração, no texto, de um limite ainda mais radical para o aumento de temperatura (1,5ºC em lugar de 2ºC) e de começar já em 2018 um processo de revisão das metas nacionais para reduzir a poluição.
Esses pontos sobre a chamada mitigação do aquecimento global têm a concordância de um novo grupo de nações --há mais de uma dúzia deles-- apresentado na COP21, apelidado pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry, de "coalização de alta ambição".
Uma centena de países participa do agrupamento, de Norte a Sul --dos EUA a membros da UE e da África ao Pacífico. Ficam de fora, porém, todos os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
Na entrevista coletiva das ONGs, questionada sobre a coalizão, Alix Mazounie, da Climate Action Network da França, respondeu curto e grosso: "É preciso ter alta ambição também nas finanças, além da mitigação".
Apesar das objeções, as ONGs mantêm expectativa de um acordo "forte" em Paris. Segundo Mohamed Adow, da Christian Aid, nunca antes numa COP se fez tanto progresso até esta altura. "Isto aqui é diferente de Copenhague", disse, em alusão ao fracasso de 2009.
