Moradores desconfiam da qualidade da água tratada do rio Doce
JOSÉ MARQUES
COLATINA, ES (FOLHAPRESS) - ?As autoridades têm que fazer o papel de amigo do rei: beber a água antes, na nossa frente, para provar que não está envenenada?, diz o aposentado Pedro Paulo Pereira, 62, ao lado do rio Doce recém-encoberto pela lama de rejeitos da mineradora Samarco.
Residente no vilarejo de Porto Belo, em Colatina (ES), Pedro Paulo assistiu nesta quarta-feira (18) a chegada do ?tsunami de lama? vindo de Mariana (MG), a mais de 400 km de distância. Por toda a vida, ele dependeu da água do rio e agora diz que não confia no tratamento feito para torná-la potável novamente.
A desconfiança dos moradores é evidente ao longo dos mais de 220 quilômetros que separam a cidade mineira de Governador Valadares de Colatina. Valadares foi a primeira e a maior cidade a ter o abastecimento interrompido devido à chegada da lama e também a pioneira no uso do coagulante Tanfloc para tratar a água poluída.
O produto, distribuído pela Samarco, também será usado em Colatina, mas a própria prefeitura ainda não sabe dizer se ele será eficaz. Em Valadares, um laudo da Copasa (empresa mineira de saneamento) atestou que a água tratada pelo Tanfloc é potável e até um ministro, Gilberto Occhi (Integração Nacional), apareceu para tranquilizar a população sobre a qualidade da água.
O produto, feito de um composto químico processado a partir da casca do tronco da planta acácia negra, reage com a lama e, com isso, a pasta de sujeira, mais pesada, fica no fundo do tanque de tratamento.
Mas, nas ruas e nas rodas de conversa de moradores, o clima é de incerteza. ?Eu não bebo de jeito nenhum. Nem filtrada. A verdade é que tem tão pouco tempo que ninguém sabe os efeitos reais dessa água no corpo?, afirma o taxista de Valadares João Carlos Alves, 65.
Em locais onde o abastecimento passará a ser feito integralmente por outros rios, como Aimorés (MG) e Baixo Guandu (ES), os moradores dizem não ter expectativa de usar novamente a água do rio Doce.
Em Colatina, a cuidadora de idosos Rita de Cássia, 55, assistia à passagem dos caminhões-pipa pela cidade e questionava: ?É água do rio? Se for, não bebo de jeito nenhum!?.
A cidade recebeu 30 toneladas de Tanfloc. Para o prefeito Leonardo Deptulski (PT), a administração não tem como impedir a desconfiança. ?O nosso papel é apresentar um laudo de técnicos confiáveis dizendo que a água é potável e divulgar isso?, afirmou.
O rompimento da barragem em Mariana aconteceu no dia 5. A lama chegou a Governador Valadares no dia 8 e dez dias depois, em Colatina.
