Assessor de Scioli diz que tentará usar moeda local em comércio com o Brasil
MARIANA CARNEIRO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Um dos principais assessores econômicos do candidato da situação à presidência da Argentina, Daniel Scioli, o presidente do Banco Província, Gustavo Marangoni, disse nesta quarta (11) que o político já negociou com o Brasil e China contribuições para recompor em US$ 20 bilhões as reservas em dólares do país até março do ano que vem.
Fora do mercado internacional de crédito devido ao impasse com credores externos, a Argentina criou uma série de controles durante o governo de Cristina Kirchner para preservar suas reservas cambiais. Limitou importações, remessas de recursos de empresas ao exterior e até despesas de pessoas físicas em dólares.
O caixa do Banco Central argentino é estimado hoje em US$ 27 bilhões, número baixo perto das necessidades do país e que também está sendo contestado pela oposição, que acusa o governo de deixar o banco "pelado" no fim do mandato de Cristina Kirchner.
Maragoni afirmou que, do Brasil, Scioli tem a expectativa de colocar em prática o intercâmbio comercial em moedas locais. A troca já é permitida, mas nunca teve efetividade na vida real pelo diferencial de valor entre o real e o peso em relação ao dólar.
"Há muito tempo está estabelecido que, em teoria, o comércio recíproco entre os dois países poderia ser pago em moeda local para não utilizar divisas em dólares. Sendo o Brasil um dos nossos principais sócios comerciais, isso descomprimiria a demanda de dólares e ajudaria a fortalecer o Banco Central", disse Maragoni. "Daniel já conversou com autoridades brasileiras, mas há acordos anteriores que são um marco para poder
fazer isso, poderíamos colocá-lo em funcionamento".
Da China, o executivo afirmou que a Argentina poderá firmar mais um acordo de reforço de reservas. O governo de Cristina conseguiu um fôlego de US$ 11 bilhões em 2014 dos chineses. Neste ano, negociou mais US$ 2 bilhões.
Esses acordos também são alvo de críticas pela oposição, que reclama haver pouca transparência nos convênios assinados pelo governo com a China.
Segundo o assessor de Scioli, há quase US$ 13 bilhões "estocados" na safra de grãos, que os fazendeiros argentinos colheram e não venderam à espera de uma mudança de governo.
O candidato promete retirar impostos que hoje incidem sobre o trigo e o milho, que alcançam 35%, e baixar a tributação da soja para 25% do faturamento.
Com isso, diz o executivo, seria possível esperar que os agricultores contribuam para aumentar o ingresso de dólares na Argentina.
"Com o fim das retenções, o produtor e comercializador vão ter um incentivo para liquidar esses grãos retidos, com benefício para o Banco Central, que precisa engrossar suas reservas o mais rapidamente possível".
Segundo ele, também haveria outros US$ 200 bilhões em poupança de argentinos fora do sistema financeiro local, "embaixo dos colchões, em cofres e em contas no exterior".
"Não podemos responder com mágica a questões técnicas", afirmou. "Não será possível responder de um dia para outro a uma questão que está vinculada à oferta e à demanda.
Como eles [a oposição] pretendem satisfazer a demanda? O que isso quer dizer é que, ao retirar a administração de quantidades, será por meio do preço, o que terá como consequência uma grande desvalorização do peso".
Além disso, os sciolistas contam, se chegam a vencer a eleição do próximo dia 22, com empréstimos de organismos como o Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, mas não do FMI (Fundo Monetário Internacional).
PESQUISA E DEBATE
Pesquisa divulgada nesta quarta (11) no jornal "La Nación" mostra que Scioli está oito pontos atrás do candidato da oposição, Mauricio Macri.
Segundo a sondagem, realizada entre a última segunda (9) e terça (10), Macri aparece com 48,7% das intenções de voto e Scioli com 40,2%. A margem de erro é de 3,5 ponto percentual.
Os aliados de Scioli estão apostando todas as fichas no debate presidencial do próximo domingo (15) para alavancar uma virada de Scioli e conquistar indecisos -6,4% segundo a pesquisa.
Segundo Marangoni, a expectativa é que o debate alcance 50 pontos de audiência, o que é extremamente elevado.
"É uma audiência de Argentina e Brasil em uma final de Copa do Mundo. Será uma excelente oportunidade para mostrar à sociedade não só os objetivos que se busca alcançar mas também quais são as decisões políticas sobre como [alcançá-las].
Nós explicamos como queremos alcançar esses objetivos, esperamos que o candidato opositor também apresente suas propostas para que eleitor tome sua decisão final".
