UE critica deterioração da liberdade de expressão na Turquia
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A União Europeia (UE) divulgou nesta terça-feira (10) um relatório em que critica a Turquia pela deterioração da liberdade de imprensa no país e pede a retomada do processo de paz com militantes curdos.
"Depois de vários anos de progressos a respeito da liberdade de expressão, foram constatadas sérias recaídas nos últimos dois anos", destaca o relatório anual da UE sobre o avanço da Turquia no processo de adesão ao bloco.
O documento cita o aumento de ameaças à liberdade de expressão como "intimidação dos jornalistas e dos meios de comunicação, assim como as ações das autoridades que limitam a liberdade de imprensa são de considerável preocupação".
Na semana passada, após a vitória eleitoral do partido Justiça e Liberdade (AK), do presidente Recep Tayyip Erdogan, o governo turco determinou a prisão de dois diretores da revista de oposição "Nokta", que haviam criticado o resultado do pleito, chamando-o de "princípio de guerra civil".
Na semana anterior às eleições, a polícia invadiu os canais de televisão do grupo Koza-Ipek, ligado à oposição, e interrompeu suas transmissões. Desde então, segundo a mídia turca, ao menos 58 jornalistas do grupo foram presos.
Em entrevista à rede americana CNN divulgada nesta terça-feira, o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, disse que as críticas contra o governo "não refletem a realidade" e que "ninguém foi proibido de dizer nada nas eleições".
Além disso, o premiê chamou de "provocações" as declarações da "Nokta" sobre o resultado das eleições.
A Turquia é o 149º colocado entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa World Press Freedom 2015 da organização Repórteres Sem Fronteiras.
ADESÃO
No relatório anual, a UE avalia que o processo de adesão da Turquia se vê "contrabalançado" pelos acontecimentos locais, que "vão contra os parâmetros europeus".
O bloco pede a retomada das negociações de paz para resolver "o tema curdo" e lamenta o rompimento, em julho, do cessar-fogo negociado em 2013. Desde então, centenas de pessoas morreram em ofensivas do governo e ataques de militantes curdos contra as forças de segurança.
Os curdos, minoria étnica concentrada em áreas da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã, são considerados o maior povo apátrida do mundo e buscam estabelecer um Estado nacional na região.
A UE também expressa inquietação com a "severa deterioração da segurança" na Turquia e pede uma investigação "transparente e rápida" do mais grave atentado da história do país, que deixou pelo menos 95 mortos em uma manifestação em Ancara em 10 de outubro.
Por outro lado, Bruxelas elogia a Turquia pela ajuda humanitária "sem precedentes e o apoio aos refugiados da Síria do Iraque". O país é o principal destino de refugiados da guerra civil síria, abrigando 2 milhões de pessoas.
O bloco europeu, que registra a maior onda migratória desde a Segunda Guerra mundial, pede ao governo de Erdogan que ajude a conter o fluxo de migrantes que chegam por terra e mar. A UE oferece em troca uma ajuda de 3,3 bilhões de euros (R$ 13,5 bilhões) à Turquia, valor considerado insuficiente por Ancara.
UE e Ancara iniciaram oficialmente as negociações para a adesão da Turquia ao bloco em 2005, mas o processo foi suspenso alguns anos depois pela oposição da França e da Alemanha à entrada do país. As duas partes retomaram as negociações em novembro de 2013.
