Família espalha cartazes de menina de 5 anos que sumiu na lama
JULIANA COISSI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Emanuelly, 5, escapou dos braços do pai, Wesley Isabel, 23, e sumiu na lama que cobriu o subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana (a 124 km de Belo Horizonte), após o rompimento de duas barragens de uma mineradora nesta quinta-feira (5).
Desde o desaparecimento da menina, a família espalhou cartazes pelo centro de acolhida dos desabrigados e hospitais com foto da menina e telefones de contato de parentes.
Wesley estava com a menina e o outro filho, Nicolas, 3, na casa onde moravam no subdistrito quando recebeu o aviso para fugir para uma parte alta da comunidade e escapar, assim, do mar de lama. A mãe das crianças já havia sido socorrida por vizinhos.
O pai agarrou as duas crianças e atravessava a rua quando foi atingido pela lama. Vizinhos conseguiram puxar Wesley e Nicolas, mas Emanuelly se perdeu.
O pai está internado no hospital Santa Bárbara com fratura nas pernas. Já o garoto segue no hospital João 23 sob tratamento - ele está com água nos pulmões, conta a tia Débora Monteiro da Silva, 23.
"A gente não sabe o que fazer, fomos em todos os hospitais e ninguém dá informação. O pessoal do resgate não nos explica nada", diz a tia.
Ela esteve próxima do local devastado. Segundo Débora, Bento Rodrigues "é só lama". "Tudo é lama, não tem nem como descrever. Pessoal perdeu tudo: casa, carro, documentos."
ACIDENTE
Duas barragens de uma mineradora se romperam em Bento Rodrigues, a 35 km histórica de Mariana (a 124 km de Belo Horizonte), em Minas Gerais, na quinta-feira (5). Um "tsunami de lama" destruiu centenas de casas, arrastou carros e caminhões.
O acidente ocorreu por volta das 15h30 na vila que tem 121 casas e 492 moradores, segundo o IBGE. Na hora do rompimento, um funcionário da empresa Samarco, responsável pela barragem de contenção de rejeitos, morreu no local. De 25 a 30 funcionários estavam no local.
Sete carros dos bombeiros de Belo Horizonte, dois de Ouro Preto e helicópteros com cães farejadores foram enviados a Mariana, que foi isolada. A cidade não possui bombeiros militares, apenas civis.
Segundo Sérgio de Moura, diretor do Metabase (sindicato dos trabalhadores na indústria de mineração de Mariana), a Samarco disse que houve abalos sísmicos na região às 14h. O observatório da USP registrou, a 22 km do local, tremor de 2,55 na escala Richter, mas considerado de baixo impacto (com até 3 na escala, nem costuma ser sentido pelas pessoas). O rompimento ocorreu uma hora e meia depois.
O Ministério Público de Minas Gerais abriu inquérito, conduzido por cinco promotores, para apurar as causas e responsabilidades. Segundo o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, é prematuro tirar conclusões, mas ele descarta se tratar de um "acaso". "Nenhuma barragem se rompe por acaso, isso não é uma fatalidade. Precisamos de rigor nesta apuração."
A presidente Dilma Rousseff colocou à disposição as forças nacionais para ajudar no resgate de desaparecidos.
