Na maior zona eleitoral, disputa a governador divide kirchneristas
SYLVIA COLOMBO, ENVIADA ESPECIAL
LA MATANZA, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - No principal reduto eleitoral do país, a província de Buenos Aires, onde vota um de cada três argentinos, já se podia sentir o clima de disputa antes mesmo de os postos de votação abrirem, às 8h (9h de Brasília).
A reportagem acompanhou as primeiras horas da eleição em La Matanza (30km da capital), onde vota 1 milhão de pessoas.
"Vou votar no [Daniel] Scioli porque se não fossem os Kirchners, meu bairro não teria sido urbanizado. Agora temos energia, esgoto, rua asfaltada", disse Teresa Merino, 59, que vive no bairro de Villa Palito.
"E coloque aí que voto com consciência, não precisei ser convencida por "punteros" [líderes comunitários ligados a partidos políticos que distribuem benefícios]", acrescentou apontando para o bloco da reportagem.
Relatos diferentes, porém, foram recolhidos nos arredores da praça principal de San Justo, principal cidade de La Matanza. "Ontem o pessoal da Frente para la Victoria esteve no bairro, sim, ensinaram como escolher e dobrar a boleta (cédula de votação). Dão coisas pras famílias, é sempre assim. As pessoas são pobres, claro que aceitam", disse Omar Reynoso, 47, que foi votar logo cedo acompanhado dos dois filhos.
Para os moradores da província de Buenos Aires, porém, o mais importante não parecia ser escolher entre Scioli ou o conservador Mauricio Macri, segundo nas pesquisas, mas sim definir-se sobre o governador local.
Estão na disputa o atual chefe de gabinete de Cristina Kirchner, Aníbal Fernández, e a candidata do PRO, Maria Eugenia Vidal.
Indefinida como a corrida presidencial, a escolha na província determina, também, o futuro político do país.
O detentor do cargo _atualmente é Scioli _ vira peça essencial para a governabilidade do presidente, além de sair à frente numa futura disputa presidencial. O que ocorre nesta eleição, porém, é que Scioli e Fernández não estão alinhados. Possuem um histórico de discordâncias, além do fato de que Fernández é um kirchnerista convicto, enquanto Scioli vem de uma ala mais tradicional do peronismo.
"É uma dificuldade para os eleitores, porque tem muita gente que quer votar no Scioli, mas não quer o Fernández de governador, e vice-versa", explica o analista Patricio Giusto.
No sistema argentino de votação, os eleitores escolhem cédulas já impressas pelos partidos dentro da cabine. Se deseja votar em candidatos de diferentes partidos, precisa literalmente rasgar o voto, e colocar no envelope os pedaços das cédulas que se referem a seus escolhidos.
"As pessoas estão confusas. As cédulas não são claras, e basta rasgar uma fora do lugar ou cometer algum pequeno erro para que o voto fique inválido", diz Óscar Díaz, comerciante local.
Apesar de favorito, Fernández tem tido problemas em descolar de sua imagem um possível vínculo com o narcotráfico _denunciado pelo jornalista Jorge Lanata. "Isso faz ele perder apoio, e ganhar um inimigo, que é o papa Francisco. Todo mundo aqui diz que o papa não quer o Aníbal de governador", completa Díaz.
Alguns moradores disseram à reportagem que "curas villeros" (padres da Igreja Católica que trabalham nas comunidades carentes) vinham orientando as pessoas a "votarem em qualquer um, menos no Aníbal".
O papa Francisco vem advertindo a presidente Cristina Kirchner várias vezes sobre o aumento do narcotráfico na Argentina.
Consciente de que o chamado "corte de cédula" pode prejudica-lo, Daniel Scioli concentrou atenção na província nas últimas semanas. Nas primárias, havia obtido aqui 38% dos votos, o que é considerado pouco para esta que é conhecida como "a província peronista".
La Matanza, especialmente, tem imagens de Perón por todos os lados, lembrando os anos de crescimento do bairro, na década de 1940, época de auge industrial do país. Neste período, imigrantes de várias províncias vieram viver em La Matanza, buscando oportunidades de trabalho em Buenos Aires. Trata-se, também, de uma das zonas mais violentas, com média de dois homicídios por dia.
