Pela 1ª vez, após nove anos de viagem, sonda chega à periferia do Sistema Solar
SALVADOR NOGUEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A humanidade chegou a Plutão. Não pessoalmente, mas representada por uma sonda não tripulada, após nove anos e meio de viagem.
Na manhã de hoje, a espaçonave americana New Horizons passou a meros 12,5 mil km da superfície daquele pequeno mundo, residente na periferia do Sistema Solar -uma região até hoje totalmente inexplorada.
Logo após a aproximação máxima, Alan Stern, o cientista-chefe da missão, apresentou a melhor imagem colhida pela sonda no dia anterior.
A resolução já era mil vezes maior que a possível com o Telescópio Espacial Hubble e arrancou aplausos da plateia reunida no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Laurel, Maryland, nos EUA.
A imagem -acompanhada mais tarde por versões com cores exageradas- revelou toda a complexidade de Plutão e de sua maior lua, Caronte. Um prato cheio para os cientistas.
O melhor, contudo, ainda está por vir, conforme a espaçonave começar a transmitir os primeiros dados colhidos durante a passagem próxima.
No sobrevoo em si, a sonda estava ocupada fazendo todo tipo de medição e fotografia, o que a impedia de manter contato de rádio com o planeta Terra.
O silêncio forçado, obviamente, causou apreensão. "Sempre falamos da espaçonave como se fosse uma criança, uma adolescente", disse Alice Bowman, a gerente de operações da missão. "O sentimento é uma mistura de nervosismo e orgulho ao mesmo tempo."
A expectativa era retomar o contato por volta das 22h de hoje.
O TAMANHO
Algumas coisas já puderam ser determinadas logo de cara. A primeira é o tamanho exato de Plutão -algo que é alvo de discussões há décadas. Ele tem 2.370 km de diâmetro, um pouco mais do que se imaginava.
A medida devolveu a ele de forma definitiva o título de "rei" do cinturão de Kuiper -conjunto de objetos localizado além da órbita de Netuno.
Éris, o principal concorrente, é um pouquinho menor -2.326 km. Mas tem mais massa, o que ajuda a evidenciar a variedade e a riqueza científica dessa população distante de objetos, cuja exploração acaba de começar.
Curiosamente, foi a descoberta de Éris, em 2005, que motivou a iniciativa da União Astronômica Internacional de criar uma definição oficial de planeta, no ano seguinte.
Os critérios adotados em 2006 determinam que, para ser planeta, é preciso limpar a região da sua órbita. Como Plutão tem muitos companheiros no cinturão, ele acabou caindo para a segunda divisão -a dos planetas anões.
Stern é um dos que até hoje não engoliram a decisão dos astrônomos. Ao mostrar a primeira imagem, ontem, disse, provocativo: "Que tal uma salva de palmas para esse bonito planeta?"
Até o físico britânico Stephen Hawking gravou uma mensagem de congratulações à equipe da sonda.
MUNDO DINÂMICO
Seja qual for a definição empregada, como um mundo complexo, Plutão não decepcionou.
Os cientistas encontraram evidências de que neva por lá -é tão frio que partes da atmosfera de nitrogênio congelam e caem como pequenos flocos pela superfície.
A presença da atmosfera talvez explique a principal diferença entre Plutão e a sua lua Caronte.
"Com os ciclos de estações, o material é transportado de um hemisfério para outro e fica exposto na superfície", diz Felipe Braga-Ribas, astrônomo da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que estuda objetos do cinturão de Kuiper e participou do estudo que mediu o tamanho de Éris.
"Caronte já perdeu esses gases há muito tempo", completa o brasileiro. Ainda assim, a lua tem complexidade considerável em sua superfície. "As imagens mostram bem que, apesar de estarem num lugar remoto, [esses mundos] não estão 'mortos'."
NOVAS SURPRESAS
Os pesquisadores também veem evidências de tectonismo, tanto no planeta anão como na lua, mas preferiram não especular mais sobre o assunto com dados ainda tão preliminares.
E essa é a tônica no momento. Com o fim do sobrevoo, termina uma aventura de engenharia e começa uma jornada científica.
Se tudo correr bem, gigabytes de dados novos serão transmitidos ao longo dos próximos 16 meses, a um ritmo modorrento de internet discada, enquanto os pesquisadores buscarão, como brincou Stern, "escrever o livro didático sobre Plutão", um mundo sobre o qual, até agora, não sabíamos quase nada.
Enquanto isso, a Nasa estuda direcioná-la para outro objeto do cinturão de Kuiper, antes de sua saída definitiva do Sistema Solar.
