Imagens revelam cotidiano em campo nazista na Segunda Guerra
THAIS BILENKY
NOVA YORK, EUA (Folhapress) - Licco Haim não era de muita conversa. Gostava de jogar xadrez, velejar e esquiar. E tinha o dom de consertar coisas.
Guardava em sua casa, em São Paulo, uma mala repleta de documentos, fotografias e filmes que ele fez durante a Segunda Guerra Mundial.
Como muitos sobreviventes, procurava não rememorar em detalhes as atrocidades que sofreu e presenciou.
Judeu austríaco, Haim passou meses durante o ano de 1941 preso em um campo de trabalhos forçados nazista em Lakatnik, na Bulgária, país onde morava na época.
Possuía uma câmera de vídeo e registrou o cotidiano no campo, documentação rara e valiosa para as pesquisas sobre o período.
Nas cenas, prisioneiros aparecem racionando comida, fumando e trabalhando.
A família de Haim não tinha noção da importância do material. O projetor que permitiria exibir as imagens ficou quebrado por mais de 20 anos.
Em maio, mais de uma década depois de sua morte, a família resolveu doar o material para o Museu do Holocausto de Washington, por sugestão de um amigo brasilianista que mora na capital americana.
A equipe técnica da instituição ficou surpresa com o ineditismo das imagens e sua importância por registrar a realidade dos campos do ponto de vista dos prisioneiros. Recuperou as fitas e as digitalizou.
Agora, os registros estão disponíveis on-line no site da instituição. Depois de uma reportagem do portal ?G1?, o Museu do Holocausto de Curitiba também pediu cópia do material.
?Foi surpreendente descobrir que os filmes eram tão únicos e especiais. Claro, ficamos muito felizes que acabamos entendendo isso antes que se perdessem de vez?, relata Salvator Haim, 69, filho de Licco.
Em vida, o pai falou pouco sobre o campo nazista. Nunca mencionou como gravou as imagens. Contou que os prisioneiros se ajudavam a terminar a cota de trabalho do dia para poderem escalar montanhas, cenas que também aparecem nas fitas.
Os nazistas pouparam vidas nos campos de trabalho forçado para aproveitar a mão de obra, diferentemente do que fizeram nos campos de concentração, onde exterminaram milhões de pessoas em massa.
MALA
Sobrinho de Haim, Ilko Minev, 69, conta que conversou bastante com o tio sobre o Holocausto, mas queria ter ido mais a fundo. ?Se tenho uma tristeza é que não perguntei o suficiente.?
Minev escreveu um romance baseado na história do tio no ano passado, e sua publicação foi o estopim para que a família resolvesse dar uma destinação apropriada às fitas.
Acredita-se que, como era cinegrafista amador, Licco foi convocado pelos nazistas a filmar cerimônias oficiais. Clandestinamente, fez cenas a mais e, naturalmente, escondeu as fitas. ?Foi sorte. O pessoal do museu nos explicou que, se as tivéssemos assistido algumas vezes mais, as imagens teriam perdido muito mais qualidade?, conta Minev.
Leslie Swift, chefe do departamento de filmes do museu em Washington, disse que o material é raríssimo e poderá abrir novas frentes de pesquisa. ?A história de vida desse homem é interessantíssima?, afirmou.
Licco nasceu em Viena, na Áustria, em 1910. Quase 20 anos depois, mudou-se para Sofia, capital da Bulgária, com o pai, Max Haim, que tinha falido e queria recomeçar a vida.
Em Sofia, eles passaram a tocar outra empresa falida, a American Car Company, que um parente havia recebido como pagamento de uma dívida. A companhia cresceu e se tornou, senão a única, uma das poucas especializadas em consertar carros na região, lembra Salvator.
Em 1941, Licco foi mandado para o campo de trabalho forçado. Em 1942, sua especialização fez com que fosse convocado a consertar automóveis para o regime.
Depois da guerra, em 1948, com a mulher e o filho, migrou para o Brasil, onde teve o segundo filho, Max. Viveu no país, que adorava, até sua morte, aos 91 anos, em 2002.
