Lei exige filmes brasileiros nas escolas, mas escolha dos títulos ainda é desafio
BRUNO MOLINERO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aprovada em 2014, uma lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff determinou que escolas públicas e particulares passem a exibir um mínimo de duas horas mensais de filmes nacionais para seus alunos.
Embora o texto atualize as diretrizes e bases da educação brasileira, há anos muitos colégios já promovem atividades que envolvem cinema e exibição de filmes. Só que de maneira equivocada, na opinião de profissionais da área.
"O problema é que as escolas costumam fazer as projeções só quando está chovendo, por exemplo, quando as crianças não podem ir ao pátio", acredita Luiza Lins, diretora que criou a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis e que faz parte de um grupo que visa regulamentar a nova lei.
Formado por membros do Ministério da Educação, da Cultura e profissionais envolvidos com cinema, o grupo terá de superar dois grandes desafios: como escolher os filmes que serão exibidos e como fazer com que as produções ajudem o conteúdo ensinado em sala de aula.
Para o primeiro, uma das soluções é usar o acervo da Cinemateca Brasileira. "São 800 filmes que a gente poderia ter à disposição. A ideia é fazer um roteiro pedagógico, para que a exibição não seja só uma maneira de matar o tempo", diz Juana Nunes, da Secretaria de Educação e Formação Artística e Cultural do MinC.
Nas escolas públicas, de acordo com as propostas debatidas, o modelo a ser seguido provavelmente será o mesmo utilizado com os livros. Uma caixa com DVDs, acompanhados de roteiros pedagógicos, deve ser enviada periodicamente às instituições.
"Não é obrigatório que o filme dialogue com as disciplinas. É importante que o aluno amplie seu repertório, conheça novas obras, diretores e histórias", diz Juana. Segundo o grupo, a tendência é que audiovisual seja tratado como arte, e não apenas como um anexo educacional. "Não é bom pedagogizar o filme, pois isso pode matar a vontade de o aluno assistir à obra", conta Luiza.
Outro gargalo a ser superado é a baixa produção infantil no país. Segundo um estudo do cineasta João Batista Melo, de 2004, apenas 2% da produção cinematográfica brasileira até aquele ano era voltada às crianças. De acordo com dados do Festival de Florianópolis, esse número ainda não passa de 4% atualmente.
"A criança brasileira não vê a si mesma na tela. Ela só entra em contato com o cinema nacional quando está mais velha, já quase adulta. Na infância, fica restrita à cultura estrangeira", diz a diretora.
Sem ainda saber concretamente como a lei será regulamentada e fiscalizada, um seminário deve ser feito em breve para discutir o tema e decidir como será feita a curadoria de escolha dos filmes.
