PF prende ex-chefe de braço armado da Camorra acusado de 26 mortes
RUBENS VALENTE E MARCO ANTÔNIO MARTINS
BRASÍLIA, DF, E RIO DE JANEIRO, RJ - Após viver no Brasil com o nome falso de Francisco de Castro Visconti no Recife (PE) por quase 30 anos, o italiano Pasquale Scotti, 56, apontado pela polícia italiana como um dos mafiosos foragidos mais procurados do país, foi preso às 7h desta terça-feira (26) por uma equipe da Polícia Federal.
Segundo as autoridades italianas informaram ao Brasil, Scotti foi o chefe do "braço militar" de um grupo mafioso denominado Nova Camorra Organizada, de Nápoles, e que tinha como líder principal Raffaele Cutolo, que cumpre prisão perpétua.
Scotti chegou a ser preso na Itália em 1984, mas escapou no mesmo ano do hospital em que estava custodiado, em Casoria. Desde então não foi mais visto e, segundo a PF, chegou a ser dado como morto por ex-mafiosos.
A Itália atribui a Scotti a participação em um total de 26 assassinatos na Itália entre 1980 e 1983, além de extorsão, porte ilegal de armas e resistência.
Scotti foi levado à sede da Superintendência da PF no Recife. A PF já pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) sua transferência para um presídio de segurança máxima. A PF tem prazo de 90 dias para pedir também ao Supremo a extradição de Scotti para a Itália.
Após a notícia da prisão de Scotti, autoridades da Itália, como o ministro do interior Angelino Alfano, comemoraram na imprensa italiana a detenção do mafioso. "Um tiro surpreendente marcado por nossa equipe italiana junto com a valiosa cooperação da polícia do Brasil. A caça aos fugitivos ultrapassa à fronteira do nosso país", disse.
PASQUALE SCOTTI
Segundo o chefe da Interpol no Brasil, o delegado da PF Valdecy Urquiza Júnior, Scotti chegou por volta de 1986 ao Brasil com documentos falsos -os detalhes sobre sua entrada no país não foram revelados. No início da década de 1990, Scotti conseguiu, também com papéis falsos, uma cédula de identidade brasileira com o novo nome brasileiro.
Instalou-se então no Recife, onde conheceu uma mulher brasileira há 18 anos, com quem teve dois filhos. Segundo Urquiza, Scotti "não ostentava riqueza, procurava se resguardar e não se apresentava muito em público". No Recife, Scotti dirigia uma empresa de fogos de artifício e estava ligado a empreendimentos imobiliários, segundo a PF.
No momento da prisão, Scotti disse à PF, segundo Urquiza, que "Pasquale Scotti não existia mais, eu sou só Francisco", procurando proteger sua família, alegando que ela não tinha conhecimento de sua passado na máfia. A PF não tem indícios de que a família soubesse de seus antecedentes criminosos.
A polícia brasileira chegou a Scotti a partir de informações obtidas pela Interpol italiana em fevereiro. O oficial de ligação da Interpol no Brasil, Roberto Donati, veio a Brasília, compartilhou as informações com a PF e passou a trabalhar em conjunto com a Interpol brasileira.
INVESTIGAÇÃO
A PF começou a investigar o assunto há cerca de 40 dias, a partir das informações italianas. De acordo com o delegado, a investigação focou a princípio "em pessoas e empresas de fachada, em sua maioria no Nordeste". A partir disso, a PF localizou "diversos imóveis relacionado ao grupo" e por fim "à primeira identidade de Pasquale".
A confirmação da identidade foi feita a partir da comparação das impressões digitais que constavam do banco de dados da polícia italiana com o prontuário da identificação civil de "Francisco de Castro Visconti" registrado em Pernambuco.
Em entrevista coletiva na sede da PF em Brasília nesta terça-feira (26), o diretor da Interpol na Itália, Genaro Capulongo, afirmou que a captura de Scotti "é importantíssima, é das mais importantes realizadas até hoje. Scotti é considerado um dos mais perigosos fugitivos italianos". "Procuramos ele por muitos anos no mundo inteiro", disse Capulongo.
De acordo com Capulongo, Scotti era o chefe do grupo militar "de uma organização de uma família chamada Nova Camorra Organizada, que ficou em guerra, em contraposição, com outras famílias, entre elas a Nova Família Organizada, e essa guerra causou dezenas de mortes".
TOMMASO BUSCETTA
Este não é o primeiro mafioso italiano detido no Brasil. Em 1972, o ex-chefe da máfia siciliana Tommaso Buscetta (Don Masino) foi extraditado para a Itália, onde ficou por oito anos. Durante esse período, ele fez um acordo com o juiz Giovanni Falcone e expôs boa parte das ações da máfia.
Deixou a prisão e voltou para o Brasil em 1981, quando mais de 20 de seus parentes foram mortos na guerra com os Corleone. Dois anos depois, a polícia o prendeu novamente e Buscetta foi extraditado para a Itália.
Buscetta era chefe da família Porta Nuova, de Palermo (capital da Sicília), que integrava a Cosa Nostra. O clã foi dizimado em guerra dentro da organização pelo controle do crime organizado nos anos 1970 e 1980. A disputa foi vencida pelos Corleone. Para escapar da morte, o mafioso fugiu para o Brasil em 1970.
Em 1992 a máfia dinamitou o carro do juiz Falcone, matando-o. Buscetta começou uma nova rodada de colaboração e nela entregou as conexões da máfia com políticos, inclusive o ex-primeiro ministro Giulio Andreotti. Graças a essa nova fase detonou o coração da máfia com o poder.
Em 1985, Buscetta foi mandado para os EUA, onde morou até morrer de câncer em 2000, aos 71 anos, sob proteção do FBI.
