Recuperada, mata ciliar ajuda cidade a manter abastecimento
VENCESLAU BORLINA FILHO
CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Dependente da água de represas, Iracemápolis (a 157 km de São Paulo), cidade de 22 mil habitantes na região de Piracicaba, conseguiu manter o abastecimento durante a estiagem de 2014 graças à recomposição da mata ciliar ao redor dos reservatórios e ao racionamento.
Mas não foi sempre assim. Em 1985, a cidade registrou falta de água e uma das causas foi a vegetação escassa no entorno da represa.
"A gente economizava com o que dava. Não tinha água", lembra a dona de casa Maria José Boteon, 64.
Iracemápolis é um exemplo da importância da preservação das matas para a manutenção dos mananciais. Segundo o pesquisador da Embrapa Laerte Scanavaca Júnior, a qualidade da água depende, entre outras coisas, da vegetação ao redor.
"No ano passado, tivemos uma das piores secas da história. Se não fosse a mata reconstituída, as represas poderiam até secar ou o racionamento ter sido muito pior", disse o diretor municipal de meio ambiente, Murilo Basso Nolasco.
Segundo o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP, a vegetação funciona como um filtro para impedir o assoreamento de mananciais e a chegada de fertilizantes e agrotóxicos empregados nas lavouras.
Rodrigues foi o responsável pelo processo de recomposição da mata ciliar das represas, no final da década de 1980. Ele conta que foi convocado pelo prefeito da época para buscar soluções para a falta de água.
"A lavoura de cana chegava até a margem da represa. O armazenamento de água ficou comprometido em mais de 70%", recorda-se.
A base da economia de Iracemápolis é a agricultura.
Na década de 90, os primeiros resultados da recomposição da mata já eram perceptíveis. O reflorestamento foi realizado com espécie nativas em até 50 metros da margem da represa, de acordo com Nolasco.
Segundo ele, a vegetação ajuda a manter a vazão nas nascentes da represa municipal e em outros dois reservatórios complementares em 5.000 litros por hora.
Atualmente, com as chuvas, a captação da água é feita por gravidade, sem uso de bombas. Em outubro do ano passado, no entanto, com a seca histórica, o baixo nível da represa forçou a utilização de bombas.
O racionamento foi adotado primeiro das 8h às 17h e depois, das 8h às 14h. Nesta sexta (6), o corte programado foi suspenso.
"O racionamento é uma ação educativa. Temos que fazer para não ficar sem água", disse Nolasco.
O consumo diário em Iracemápolis é de 6 milhões de litros de água por dia. A economia com o racionamento chegou a 1 milhão de litros por dia, afirma a prefeitura.
