Itamaraty diz que ações na Venezuela afetam 'partidos e políticos eleitos'
ISABEL FLECK
SÃO PAULO, SP - Em nota divulgada na noite desta terça-feira (24), o Itamaraty subiu um pouco o tom ao comentar as recentes ações do governo do venezuelano Nicolás Maduro, afirmando que "são motivos de crescente atenção medidas tomadas nos últimos dias, que afetam diretamente partidos políticos e representantes democraticamente eleitos".
Na última semana, o prefeito metropolitano de Caracas, o oposicionista Antonio Ledezma, foi detido em seu escritório sob a acusação de conspirar para derrubar o governo. Na segunda (23), foi a vez de o partido conservador Copei ter sua sede invadida e tomada por um grupo de pessoas com apoio da polícia.
Na última sexta-feira (20), o Itamaraty havia afirmado que acompanhava "com grande preocupação a evolução da situação na Venezuela", sem detalhar as recentes medidas do governo Maduro. A presidente Dilma Rousseff havia declarado, também na sexta, que a prisão de Ledezma era uma "questão interna" do país vizinho.
Na nota desta terça, o Itamaraty segue não mencionando especificamente a prisão do prefeito, mas diz que as últimas ações afetam partidos e políticos democraticamente eleitos.
Segundo a reportagem apurou, o novo comunicado reflete a leitura do governo brasileiro de que a situação política no país piorou desde a prisão de Ledezma.
A chancelaria brasileira, contudo, leva em conta a posição do governo Maduro na nota, colocando também como motivos de "crescente atenção" as "iniciativas tendentes a abreviar o mandato presidencial".
Uma das provas apresentadas por Caracas da suposta tentativa de golpe pela oposição é uma carta aberta, veiculada este mês, que pede um "acordo nacional de transição". O texto tem a assinatura de Ledezma, de Leopoldo López, outro líder oposicionista preso há um ano, e de María Corina Machado, política de oposição acusada em dezembro de conspirar para o assassinato de Maduro.
"O governo brasileiro continua a acompanhar com grande preocupação os acontecimentos na Venezuela, em especial por meio da Comissão de Chanceleres da Unasul, integrada pelos chanceleres do Brasil, Colômbia e Equador, e por contatos diretos com o governo venezuelano", diz o comunicado.
URUGUAI
Há a possibilidade de que os chanceleres da Unasul já se reúnam em Montevidéu, no fim de semana, onde estarão por ocasião da posse do novo presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, para discutir a situação na Venezuela.
No texto, o Itamaraty diz que o governo considera "imperiosa" a rápida retomada do diálogo político, por meio da Unasul e com o apoio da Santa Sé. "Nesse sentido, reitera sua disposição de contribuir de forma ativa com o governo venezuelano e com todos os setores envolvidos na Venezuela para a retomada desse diálogo", afirma a chancelaria.
O governo, pela nota, insta os atores políticos venezuelanos e os grupos que os apóiam a absterem-se "de quaisquer atos que possam criar dificuldades a esse almejado diálogo".
