Desfile de pacientes psiquiátricos arrasta centenas de foliões no Rio
DIANA BRITO
RIO DE JANEIRO, RJ - Pelo menos 600 foliões acompanham desde às 17h desta quinta-feira (12) o 15º desfile de pacientes psiquiátricos do Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, zona norte do Rio. Com muita cor e criatividade nas fantasias, o bloco ?Loucura Suburbana? voltou a desmistificar o preconceito e mostrou que o samba no pé derruba barreiras.
?O Carnaval é um direito de todo o brasileiro, inclusive daqueles que estão em tratamento psiquiátrico?, disse o médico terapeuta e artista plástico Lula Vanderley, 65, que trabalha no instituto desde a criação do bloco em 2001.
?Essa interação com a sociedade é muito importante porque mostra que eles não são doentes, não são impotentes. Aqui somos todos iguais?, destacou a médica psiquiátrica Louise Machado, 35, à reportagem.
No meio do desfile, houve protesto de pacientes que pediam atenção do governo para a modernização da psiquiatria. ?A múmia foliã adverte: ?e a reforma psiquiátrica???, dizia um dos cartazes colados a uma maca hospitalar com um boneco simbolizando um doente.
Neste ano, o bloco ganhou uma boneca gigante em homenagem à médica matriarca do instituto ? Nise da Silveira. O mestre-sala e a porta-bandeira também mostraram elegância e charme na hora do desfile à frente da bateria formada por mais de dez pacientes da unidade.
Com o samba ?Ourevoar!?, feito por um dos integrantes da oficina de música do instituto, os pacientes deram um ?grito de liberdade? e levaram alegria para as ruas do Engenho de Dentro. Mestre-sala desde a criação do bloco, Sidimar Marinho, 38, disse ser contra a internação forçada de pacientes. Aos 17 anos, ele foi obrigado pela família a ir para um hospital psiquiátrico, na época ainda chamado de hospício.
?É um sistema muito isolado, não é bom. Depois minha família me levou a um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) e passei a melhorar. Hoje em dia meu relacionamento é ótimo com eles e tenho até o meu próprio negócio, que é uma barraquinha de cachorro quente?, disse Marinho.
Pacientes de outras instituições do Rio como a Juliano Moreira, em Jacarepaguá, zona oeste, também estiveram no desfile e protestaram pela reforma psiquiátrica.
?Fiquei internada de 1970 a 1983. Não sabia nem mais quem eu era. Se não fosse as minhas pinturas eu não estava viva?, comemorou a ex-paciente e artista plástica Ruth de Souza Nunes, 61, conhecida como Patrícia Ruth, que hoje vive com a família e tem um filho e três netos.
Fundadora do bloco, a psicóloga Paula Barros, 38, organizou o andamento do desfile do início ao fim. Ela disse que 2015 será ainda o terceiro ano do bloco na abertura do desfile das escolas campeãs com a agremiação ?Embaixadores da Alegria?.
?Abre-se a porta e saem os loucos e as pessoas não têm mais medo. Todos de foliões.. aí você não sabe mais quem é quem?, disse emocionada.
O Instituto Municipal Nise da Silveira ainda conta com 50 leitos de internação compulsória.
