Combate ao narcotráfico é mais eficiente sem os EUA, diz Morales
LA PAZ, BOLÍVIA - O presidente boliviano, Evo Morales, assumiu nesta quinta-feira (22) seu terceiro mandato afirmando que nacionalizar o combate ao narcotráfico dá mais resultados do que com a ajuda dos EUA. Voltou, ainda, a reivindicar parte do território chileno por conta do acesso ao mar e justificou sua continuidade no poder, apesar de a atual Constituição boliviana só permitir uma reeleição.
A cerimônia, que ocorreu na Assembleia Legislativa, foi assistida pelos presidentes Dilma (Brasil), Nicolás Maduro (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Horacio Cartes (Paraguai), além do vice argentino Amado Boudou e representações de outros países.
DILMA
Dilma chegou a La Paz momentos antes de a cerimônia começar e saiu, sem dar declarações, logo após a foto oficial. Sorridente e vestida de casaco verde, a presidente vestiu o poncho cor-de-rosa oferecido no aeroporto e posou para fotos.
No ano passado, Morales havia reclamado que a presidente jamais visitara a Bolívia, ao contrário de seu antecessor, Lula. A relação entre os dois países havia ficado chamuscada após a fuga do senador oposicionista Roger Pinto promovida por funcionário do Itamaraty em La Paz. Até hoje, a embaixada brasileira na Bolívia encontra-se sem um titular.
EUA
"Quero pedir desculpas à comitiva norte-americana, mas sem vocês nós somos eficazes na luta contra o narcotráfico. Quando tínhamos a DEA (Drug Enforcement Administration) aqui, nos deixaram com 34 mil hectareas de plantação de coca, agora temos 22 mil e boa parte é dedicada à coca para consumo legal."
CHILE
Morales também afirmou que insistirá junto à Corte de Haia e a outros organismos internacionais pela reivindicação boliviana de saída ao mar, através do atual território chileno. O impasse, que desencadeou a Guerra do Pacífico em 1879 se estende diante da negativa do Chile em negociar.
Os chilenos pedem respeito a um acordo firmado entre os dois países em 1904, em que a Bolívia foi restituída financeiramente pelo território. Depois da notícias de que o papa Francisco interviria em favor dos bolivianos, a presidente Michele Bachelet decidiu não comparecer à posse. "Vamos voltar a ver o mar, é nossa vocação, o Império que aqui existia antigamente tinha litoral", afirmou Morales.
O boliviano começou seu discurso defendendo os avanços de sua gestão, que completou nove anos, na redução da pobreza (hoje em 11%) e no bom crescimento do país (5,5% no ano passado). "Vamos reduzir a um dígito o índice de pobreza, e melhoraremos a saúde para evitar que bolivianos tenham de se tratar no exterior", disse, mencionando o Brasil.
Morales concorreu ao terceiro mandato após a Corte Suprema avaliar que, devido à mudança da Constituição em 2009, o presidente estaria, tecnicamente, apenas no segundo mandato. "Nunca nenhum projeto político teve tanta popularidade na Bolívia. Vencemos três eleições com mais de 50%, 60% dos votos, e temos maioria no parlamento", concluiu.
INTERNACIONAL
Ao final, Morales saiu ao balcão do palácio de governo, na plaza Murillo, e cantou junto ao vice, Álvaro García Linera, Rafael Correa e Boudou a Internacional Socialista. O vice argentino parecia alheio à comoção nacional que a morte do promotor Alberto Nisman causou em seu país. Sorrindo o tempo todo e fazendo o sinal de paz e amor com os dedos, Boudou também não quis dar declarações sobre a crise envolvendo a gestão Cristina Kirchner.
MULHERES
"Se não fossem tão teimosas, as mulheres mandariam no país, porque são honestas e mais trabalhadoras. Só peço que parem de brigar entre si", disse Morales, ao final do discurso, ao elogiar o aumento da participação das mulheres no parlamento na última década.
Não é a primeira vez que Morales faz comentários considerados machistas pela oposição e por organizações feministas, pelos quais já pediu desculpas anteriormente.
Apesar de reforçar o fato de que 50% dos parlamentares da última gestão serem mulheres, líderes oposicionistas chamam a atenção para o fato de que a maioria é de origem indígena e camponesa, portanto não representando as mulheres das áreas urbanas.
"Morales elogia a participação da mulher, mas somente daquela que opta pela vida familiar, servil, e ocupando o papel de mãe, como na tradição indígena. As que vivem vidas mais independentes, nas grandes cidades, não têm espaço em seu partido e em seu governo", disse em entrevista María Galindo, da fundação Mujeres Creando.
Em seu gabinete ministerial, a porcentagem não se confirma, apenas 35% são mulheres. No começo da semana, todos os ministros se demitiram e Morales promete uma reforma na composição do gabinete, a ser anunciada na semana que vem.
