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Ativistas usam óculos com microcâmera e gravam cantadas

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Ativistas usam óculos com microcâmera e gravam cantadas
Autor Imagem - Fernando Donasci - Foto: Reprodução

SÃO PAULO - O espectador tem a mesma perspectiva de uma mulher andando pelas ruas de uma grande cidade. Caminhando a seu encontro, um homem grita uma cantada. Seu rosto é mantido desfocado, enquanto a jovem toma coragem para confrontá-lo, perguntando o porquê do assédio e informando ao rapaz o quanto aquilo a agride.

Se 99,6% das mulheres brasileiras usassem em seu cotidiano um óculos com uma microcâmera, essa cena poderia ser repetida num filme à exaustão em diferentes cenários, como revela uma pesquisa realizada pela campanha “Chega de fiu-fiu”, idealizada pelo site Think Olga.

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A pesquisa on-line sobre assédio sexual lançada no segundo semestre de 2003, com a participação de oito mil mulheres, revelou que 83% não gostam de ser cantadas nas ruas. Encarar de forma persistente o que muitos consideram um inocente “oi, linda” causa medo e é reconhecido como violência.

— Só um olhar sem consentimento vai ser agressivo. Paquera e assédio são coisas diferentes, porque paquera não causa medo e angústia, e há o consentimento da mulher — explica a jornalista Juliana de Faria, de 29 anos, criadora do Think Olga, destacando outras revelações da pesquisa, tais como: 81% das mulheres afirmaram já ter deixado de fazer algo por medo de assédio; 85% disseram ter sido tocadas de forma inapropriada; e 68% foram xingadas ao recusar cantadas. — O “oi, linda”, que parece inocente, quando recusado costuma rapidamente virar “vadia” ou coisa pior — relata Juliana.

Numa realidade como a revelada na pesquisa, na qual as mulheres sentem sua liberdade no espaço público tolhida, a pesquisa “Chega de fiu-fiu” cresceu, resultando na criação de uma mapa interativo no qual denúncias anônimas ou não indicam locais onde pessoas foram assediadas.

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Foi da ideia de percorrer os trajetos indicados pelo mapa que Juliana, em parceria com documentarista e jornalista Amanda Kamanchek, de 28 anos, e a fotógrafa e documentarista Fernanda Frazão, de 28 anos, resolveram criar um documentário, também intitulado “Chega de fiu-fiu”.

UMA DISCUSSÃO MUNDIAL

Intercalando entrevistas com especialistas e filmagens nas ruas feitas por mulheres usando óculos com microcâmeras, a ideia do filme é esquentar ainda mais um debate que ganha força no mundo inteiro.

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“Femme de la rue”, um documentário belga de Sofie Peeters revelando o assédio sexual sofrido pela cineasta nas ruas de Bruxelas, e o curta-metragem da ONG americana Hollaback, mostrando as abordagens a uma mulher que caminha por dez horas nas ruas de Nova York, são alguns exemplos da atualidade e do impacto do tema.

— A mulher não é preparada pela família ou pela sociedade para lidar com o assédio sexual. Uma das melhores formas de evitá-lo é se colocar como protagonista, e não vítima — explica Amanda.

Daí a importância das filmagens com a microcâmera nos óculos, completa Fernanda. Ela observou que a experiência de caminhar pelas ruas com os óculos tem sido quase um ato performático para as mulheres que participam do documentário.

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— Elas mudam ao usar os óculos. Ganham coragem para enfrentar os agressores olho no olho, de cabeça erguida — conta a documentarista.

O documentário, ainda sem data de lançamento, começou a ser filmado no início do ano. O grupo de criadoras espera que o filme amplie o público da campanha “Chega de fiu-fiu”. Planejam usá-lo como estratégia de formação em escolas, com funcionários do metrô, delegacias, defensorias.

Ao investigar qual é o espaço da mulher na cidade, as três percebem o quanto a sociedade ainda precisa avançar nas questões de igualdade de gênero.

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— Não acho que exista um novo feminismo, pois lidamos com os mesmos assuntos. Os números de violência contra a mulher ainda são alarmantes, e a representatividade feminina na política é pequena, para citar dois exemplos — afirma Juliana, que conclui: — Novos meios como campanhas colaborativas na internet, viralização e humor têm ajudado muito.

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