Falta um conflito básico em Insensato Coração
Cerca de expectativa antes da estreia, “Insensato Coração” ainda não decolou na audiência. Até agora, seus números giram em torno dos 34 pontos e, em alguns dias, a trama chega a ter índices menores do que “Ti Ti Ti”, o folhetim das sete. Um grupo de discussão com telespectadores já foi organizado pela Globo para detectar problemas e corrigir os rumos da história. Curioso que Gilberto Braga e Ricardo Linhares, refinados dramaturgos, tenham de passar por isso. Especialmente quando um deles tem no currículo uma dar maiores novelas de todos os tempos, “Vale Tudo”, e assinou também a excelente “Celebridade”.
Não é preciso ir muito longe, porém, para entender porque a trama de “Insensato Coração” ainda não engrenou. Embora tente fugir do tradicional modo de se fazer teledramaturgia no país, a produção esquece do principal ingrediente que move uma novela: mocinhos sofrem com as armações dos vilões. Até agora o que se viu foi Léo (Gabriel Braga Nunes), grande antagonista, apronta muito, mas contra ele mesmo. Ou contra outros personagens que não os protagonistas. Ou seja: o casal principal, Marina (Paola Oliveira) e Pedro (Eriberto Leão) praticamente passou incólume. Isso deve mudar no decorrer dos próximos capítulos, claro, quando o vilão incentivará a prima Irene (Fernanda Paes Leme) a levar Pedro, bêbado, para a cama. E engravidar. Mas demorou demais para isso acontecer.
Indo mais além, a grande virada de Norma também tem custado a ocorrer. Gloria Pires é uma excelente atriz, não há dúvida. Mas sua história em nada casa com a dos protagonistas da trama, exceto pela ligação com Leo. É quase como se “Insensato Coração” tivesse dois protagonistas. E mais: apesar de ter sido o responsável pela prisão de Norma, as armações do malvado irmão de Pedro têm se mostrado um verdadeiro fiasco. Ele acaba por fazer mais mal a ele mesmo – ele apanha, leva golpe, tem arma apontada para cabe;ca, vive na pindaíba – do que para os outros personagens. Ora, sem alguém que maltrate os mocinhos – exceto o próprio orgulho de um deles, traumatizado com um acidente -, como pode o espectador torcer para um final feliz? É bom Gilberto Braga e Ricardo Linhares ficarem de olho nesse fator.
