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O Amante de Lady Chatterley ganha nova tradução

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No início do julgamento da proibição de "O Amante de Lady Chatterley", em 1960, no Old Bailey, o tribunal criminal londrino, um funcionário da promotoria leu para os jurados uma lista de "obscenidades" do romance de D.H. Lawrence (1885-1930).

Havia 30 vezes as palavras "foda", "trepar" e suas variações; "boceta" aparecia 14 vezes; "colhões" ou "ovos", 13 vezes, e assim por diante.

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Na mesma sociedade supostamente moderninha que gerou os Beatles (nascidos naquele ano), o livro estava proibido havia 32 anos, desde 1928, quandoLawrence o publicou na Itália.

Aproveitando-se de uma alteração na lei sobre publicações obscenas que passava a considerar o "mérito literário" de obras tidas como pornográficas, a editora Penguin anunciou que levaria ao mercado, a preço de banana, o já lendário romance --que circulava no Reino Unido em edições piratas. O Estado então processou a editora.

Nos 50 anos do célebre julgamento, completados em novembro último, o clássico de Lawrence que descreve o affair entre a mulher de um nobre paralítico e um empregado da família ganha nova tradução para o português, de Sergio Flaksman, pela Penguin-Companhia.

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FEBRE

Como se sabe, de nada adiantou o afã do Ministério Público para manter "O Amante..." banido. O júri absolveu a Penguin, e o romance virou febre imediata no Reino Unido. A tiragem inicial de 200 mil exemplares esgotou-se no primeiro dia. Em três meses, foram vendidos 3 milhões de livros.

O julgamento --do qual as figuras principais já morreram ou estão doentes-- tornou-se um marco da revolução de costumes que se seguiria nos anos 60.

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Num conhecido poema a respeito, Philip Larkin sintetizou o contexto: "O intercurso sexual começou/ em mil novecentos e sessenta e três/ (tarde demais para mim)/ entre o fim da proibição de 'Chatterley'/ e o primeiro disco dos Beatles".

Em artigo no diário londrino "The Guardian", o jurista Geoffrey Robertson, da área de direitos humanos, escreveu que nenhum outro julgamento na história do Old Bailey teve "consequências sociais e políticas tão profundas" e que "o veredito foi um passo crucial em direção à liberdade da palavra escrita".

Num sinal de quão complexo é o caso para o país, reportagem do "Daily Telegraph", mais conservador, minimizou o impacto revolucionário do julgamento, ao defender que o fim da censura era inevitável, pois àquela altura o "establishment" britânico já estava mesmo ao lado da Penguin, e que, ainda assim, o grosso da sociedade se manteve conservadora.

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"Naquele momento histórico, a Inglaterra estava à beira de uma mudança sísmica nos valores sociais. Em retrospecto, o julgamento parece representar o marco inicial da liberação sexual e uma rebelião contra todo tipo de autoridade --paterna, social e jurídica", disse à Folha Andrew Harrison, diretor do Centro de Pesquisas D. H. Lawrence da Universidade de Nottingham (Inglaterra).

"Naturalmente", acrescenta o professor, "o julgamento em si não causou tamanha mudança social, mas ficou associado a ela na imaginação popular. Quando as pessoas pensam nos 'Swinging Sixties' e no amor livre, naturalmente pensam no julgamento de 'Lady Chatterley', daí a sua notoriedade na Grã-Bretanha hoje".

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