Diretor de Canibal holocausto’ comenta polêmicas

As diversas cenas com os animais eram tão realistas e repulsivas, que parecia até que o diretor tinha filmado os bichos sendo mortos de verdade – e ele tinha. Como havia também passagens (igualmente repulsivas) com pessoas sendo torturadas e assassinadas, veio a dúvida: teriam elas realmente morrido, para amplificar o efeito de choque?
Não demorou muito e a suspeita ganhou o noticiário: após as primeiras exibições públicas de “Canibal holocausto”, em 1980, o cineasta em questão, Ruggero Deodato, foi convocado a se defender das acusações de crueldade com animais e assassinato em primeiro grau. Livrou-se das segundas porque, durante a audiência, os atores da obra adentraram a corte italiana e, afinal, mostraram ao juiz que estavam, sim, vivos. É esse tipo de historia que Deodato deverá contar pessoalmente nesta terça-feira (22), em São Paulo, em um debate no 6º Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico. Ele é o homenageado desta edição do evento, que se dedica ao cinema de “ficção científica, horror e fantasia”.
“Eu não fui preso. O juiz me sentenciou a quatro meses de prisão, mas, claro, eu não passei um único dia atrás das grades”, afirma Deodato, em entrevista por e-mail ao G1. Não se pode dizer que o tumulto foi inesperado. Havia, por exemplo, esta cláusula no contrato dos atores: depois do lançamento do filme, eles deveriam desaparecer durante um ano, para reforçar a impressão de que estavam mesmo mortos. “A ideia foi minha. Eu pensei que isso poderia ser uma operação de marketing inteligente, e toda a equipe de produção concordou comigo, na época.”
“Canibal holocausto” – não raro descrito como “um dos filmes mais polêmicos de todos os tempos” – é um “falso documentário”, como “A bruxa de Blair” (1999), “Atividade paranormal” (2007) e “[REC]” (2007). Na trama, quatro americanos desaparecem quando estão na Amazônia produzindo um documentário sobre tribos indígenas. Restam, no entanto, as filmagens, que são encontradas por um segundo grupo. Ali está o material da barbárie. “Rodamos essas cenas na Colômbia e no Brasil, em Tabatinga [município do estado do Amazonas], um lugar incrível, onde achamos uma tribo muito inteligente”, conta Dedodato.
A transformação de “Canibal holocausto” em evento cinematográfico teve efeitos nocivos para a carreira de seu diretor. Ele lembra que, no princípio, enfrentou problemas para achar filmes para dirigir. Dedicou-se, então, a comerciais de tevê e outras produções de encomenda. Atualmente, aos 72 anos de idade, Deodato é sucinto ao ser confrontado com a possibilidade de refazer a obra que o consagrou: “Posso lhe dizer muito brevemente qual a minha posição hoje em dia: se tivesse de fazer uma nova versão, eu não mostraria nenhum tipo de violência contra os animais, em absoluto”.
Deodato começou a carreira trabalhando como assistente dos diretores Roberto Rosselini (a quem chama de “mestre”) e Sergio Corbucci. “A influência de Rossellini sobre mim foi na busca por realismo. Corbucci, por outro lado, ensinou-me como editar um filme, e a estética da crueldade. ” Com “Canibal holocausto”, Deodato associou-se para sempre aos rótulos da controvérsia e do terror extremo. Mas há quem veja nele méritos que superam os fetiches por sangue e violência.
“Esse filme de baixíssimo orçamento critica o sensacionalismo da mídia e é extremamente bem feito, mesmo em seus improvisos. Têm um realismo brutal”, observa o diretor independente gaúcho Felipe Guerra, autor de um artigo acadêmico sobre “Canibal holocausto” publicado em uma revista eletrônica do departamento de cinema da Universidade de São Paulo (USP). “Se tu mostra a um cara desavisado, o cara vai acreditar que é verdade, que estão matando [pessoas] mesmo. Mas é claro que a gente pode condenar o Deodato por também ter usado o sensacionalismo, o que é uma ironia...”
Guerra está escalado para o 6º CineFantasy. Ele integra a mostra competitiva de longas-metragens com uma produção de nome autoexplicativo: “Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado – Parte 2” (2011), que custou R$ 3 mil e faz uma sátira de “Pânico” e franquias similares. “Estou louco para encontrar o Ruggero Deodato e dar uma cópia pra ele”, confessa Guerra. Lançado em 2001, o capítulo anterior de “Entrei em pânico...” teve orçamento de R$ 150 – boa parte investidos em groselha (ou “sangue cenográfico”). Um quantia significativamente inferior aos estimados US$ 100 mil de “Canibal Holocausto”.
