Casal admite ter mantido outra estrangeira em trabalho análogo à escravidão em SC
Há relatos de agressões psicológicas, verbais e físicas, incluindo arremesso de objetos

O corretor de imóveis de luxo Fabricio Saltini, investigado por manter uma mulher etíope de 34 anos em trabalho análogo à escravidão em Florianópolis (SC), admitiu ter recebido outra estrangeira nas mesmas condições no ano anterior. "O empregador assumiu que no ano passado trouxe uma trabalhadora nessas condições e que ela permaneceu com ele. Mas não temos os dados dessa trabalhadora devido à informalidade", informou a auditora-fiscal do trabalho Maria Neuzeli Arantes de Oliveira.
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Saltini e a companheira, Nour Salem, moram em um condomínio fechado no bairro Rio Tavares. O casal contratou a vítima em dezembro, em Dubai, nos Emirados Árabes, onde ele também atua como corretor de imóveis de luxo, com a promessa de que ela teria apoio de outras funcionárias.
Ao chegar ao Brasil, porém, a etíope ficou responsável sozinha por todos os cuidados da casa e da família, incluindo os dois filhos do casal e os animais domésticos. "A jornada era 7×0, trabalhava todos os dias, à disposição", disse a auditora-fiscal. Segundo ela, a mulher podia acordar às 7h e só ir dormir depois das 22h, ainda ficando à disposição durante a noite para eventuais problemas.
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Há relatos de agressões psicológicas, verbais e físicas, incluindo arremesso de objetos. O casal reteve os documentos da vítima e alegava só devolvê-los quando fossem quitadas supostas dívidas de moradia e alimentação. A mulher recebia cerca de R$ 1.500, depositados em uma conta internacional vinculada à agência contratante, sem acesso à moeda local. "Não tinha acesso a documento, não tinha acesso ao dinheiro e ficava presa pela barreira cultural e da língua", afirmou a auditora. "Ela recebia um terço do valor que eles pagam para a agência. A questão é que eles precisam de uma trabalhadora à disposição 24 horas por dia, e uma brasileira não aceitaria tais condições."
A fuga aconteceu na noite do dia 8, enquanto a vítima levava o cachorro da família para passear pelo condomínio. "Era uma noite muito fria, ela fugiu portando só um celular, a roupa do corpo e chinelos de dedo. Andou muito à noite toda pedindo socorro, mas ela relata que era escuro, não tinha ninguém", detalhou Oliveira. Só no dia seguinte a etíope conseguiu ajuda usando aplicativos de tradução no celular. As autoridades chamaram um tradutor oficial para se comunicar com ela. "Ela chegou a um estado de estresse em que entendeu que fugir era melhor", disse a auditora.
A mulher está em acompanhamento psicológico e só conseguiu reaver os documentos nesta semana. A defesa do casal alega que a trabalhadora não excedia a jornada combinada e que era tratada com "muito amor e carinho". As autoridades devem investigar crimes de trabalho escravo e tráfico de pessoas, com procedimentos já instaurados no âmbito da Polícia Federal. O casal também deverá arcar com as verbas rescisórias e indenização por danos morais.
