Brasil cria 1º porco clonado da América Latina para doação de órgãos no SUS
O projeto busca produzir suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes em humanos
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Pesquisadores brasileiros alcançaram um avanço inédito na área de biotecnologia ao obter o primeiro porco clonado do país e da América Latina. O feito, anunciado no fim de março, é resultado de um trabalho desenvolvido pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante, vinculado à Universidade de São Paulo (USP), após quase seis anos de pesquisas.
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O animal nasceu em um laboratório do Instituto de Zootecnia, localizado em Piracicaba. O marco é considerado essencial para o desenvolvimento de um projeto que busca produzir suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes em humanos, sem provocar rejeição do sistema imunológico.
A iniciativa reúne especialistas de diferentes áreas, como o cirurgião Silvano Raia, a geneticista Mayana Zatz e o imunologista Jorge Kalil. O projeto começou em 2019, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e ganhou escala a partir de 2022 com a criação do XenoBR.
De acordo com os pesquisadores, a clonagem de suínos representa uma das etapas mais complexas para viabilizar o chamado xenotransplante. Embora o Brasil já tenha experiência com a clonagem de bovinos e equinos, a técnica aplicada a porcos ainda era um desafio devido a características biológicas específicas.
Os suínos são considerados promissores para esse tipo de procedimento por apresentarem órgãos semelhantes aos humanos em tamanho e funcionamento, além de facilidade de reprodução. No entanto, para que possam ser utilizados em transplantes, é necessário modificar geneticamente os animais.
Para isso, os cientistas utilizaram a ferramenta CRISPR-Cas9, que permite alterar o DNA com precisão. Foram desativados genes associados à rejeição e inseridos genes humanos para aumentar a compatibilidade.
Os embriões editados foram implantados em fêmeas híbridas, resultando no nascimento de um animal saudável, com cerca de 1,7 quilo. O sucesso da etapa indica que a técnica pode ser replicada, e novas gestações já estão em andamento.
Os animais serão mantidos em instalações com alto controle sanitário, desenvolvidas para produção em grau clínico. Esses espaços seguem rigorosos protocolos de biossegurança para evitar a transmissão de doenças, já que os órgãos gerados poderão ser utilizados futuramente como produtos médicos.
A expectativa dos pesquisadores é formar, inicialmente, um pequeno grupo de animais geneticamente modificados, capaz de se reproduzir naturalmente e sustentar o projeto. Entre os órgãos considerados prioritários para estudos estão rim, coração, córnea e pele, que juntos representam grande parte da demanda por transplantes no Brasil.
O objetivo final é que a tecnologia possa atender ao Sistema Único de Saúde, responsável pela maior parte dos transplantes realizados no país. Segundo os pesquisadores, dominar essa técnica é estratégico para reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras e ampliar o acesso a tratamentos.
Embora ainda não haja aprovação para a realização de xenotransplantes em humanos em nenhum país, estudos clínicos estão em andamento no exterior. A avaliação desses resultados deve indicar a viabilidade da técnica e o tempo de funcionamento dos órgãos transplantados. Até lá, o avanço brasileiro é visto como um passo importante rumo à aplicação clínica dessa inovação.
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