Além da pele: por que o Brasil continua racista?

Muitos ainda pensam que o racismo é apenas alguém ser preconceituoso. Acreditam que basta não odiar nem ofender para não ser racista. O racismo não está só em palavras ou atitudes isoladas. Ele está na forma como a sociedade foi construída: na justiça, nas oportunidades, no trabalho, nas escolas, nos hospitais, ou seja, nas instituições que parecem neutras, mas favorecem uns e prejudicam outros. Isso porque o racismo é estrutural.
Ele se reproduz em normas, valores e rotinas que mantêm as desigualdades sociais e raciais, não se reduzindo ao ato individual. Por isso, não basta “não ser racista”. É preciso perguntar se as relações sociais reproduzem o racismo. O filósofo Silvio Almeida explica que o racismo é muito mais profundo do que parece: "O racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo 'normal' com que se constituem as relações políticas, econômicas e culturais.".
No entanto, é preciso entender que ele não é natural. Na verdade, é uma construção presente no chão histórico da sociedade brasileira desde o período escravista e, por isso, segue organizando a economia, a política, os valores, os comportamentos e as práticas. Não à toa, raça e cor são vetores essenciais para compreender as desigualdades sociais no país porque a população negra permanece alijada do acesso a bens e serviços fundamentais para a garantia do bem-estar, tais como moradia, saúde, trabalho, renda, educação etc.
No caso da educação, por exemplo, os dados publicados na PNAD-Contínua revelam a persistência das desigualdades educacionais. Em 2025, a taxa de analfabetismo das pessoas pretas e pardas de 15 anos ou mais era de 6,5%, enquanto das pessoas de cor branca era de 2,8%. Quanto ao número médio de estudos, a população negra permanece em desvantagem quando comparada à população branca. No mesmo ano, pessoas brancas alcançaram 11,1 anos de estudo, enquanto pessoas pretas ou pardas atingiram 9,5 anos.
No que se refere ao mercado de trabalho, os dados do Ministério do Trabalho revelam igualmente as desigualdades de raça e cor. A taxa de participação da população negra conserva-se menor do que a população não negra. Já as taxas de desocupação e subocupação permanecem maior para a população negra e se intensificam para as mulheres negras. Estas desigualdades não são naturais uma vez que o racismo determina relações de poder, produzindo e reproduzindo hierarquias que privilegiam um grupo populacional (brancos) em detrimento de outro grupo, que nesse caso é a população negra.
Nesta direção, a professora Márcia Eurico lembra que essas desigualdades não são por acaso, é herança de uma história que nunca foi corrigida. Em virtude disso, a formulação e implementação de políticas públicas são fundamentais para enfrentar essas desigualdades históricas. Por outro lado, corrigir esta realidade requer o reconhecimento de que a sociedade é racista e compreender que isso é libertador. Não para reproduzir o racismo e nem dizer que existe racismo reverso (de negros contra brancos). Mas para compreender que o racismo foi construído no processo histórico e social, que ele não é natural e nem imutável, assim, pode ser desconstruído e transformar a sociedade para torná-la mais igualitária.
Reconhecer que o Brasil continua racista não é ofender ninguém, nem dividir a população. É apenas enxergar a realidade com honestidade. É entender que as desigualdades não acontecem por acaso: foram construídas ao longo de gerações. E se foram construídas, também podem ser desconstruídas por todos nós hoje. O primeiro passo para mudar é parar de fingir que todos são iguais.
É preciso enxergar além da pele, reconhecer os privilégios que existem para os brancos e lutar para que todos possam participar de forma igualitária de todos os espaços da vida social. Um país justo não é aquele que diz que todos são iguais. É aquele que trabalha para que todos de fato tenham os mesmos direitos, o mesmo respeito e as mesmas condições de vida independentemente de sua cor ou origem.
Referências:
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo Estrutural. São Paulo: Editora Jandaíra, 2020.
EURICO, Márcia Campos. O Debate Étnico-Racial e o Trabalho do Assistente Social. Revista Serviço Social & Sociedade, 2018.
