Lista de boicote a comerciantes que teriam votado em Lula vira caso de polícia em Arapongas (PR)
Diretório municipal do PT divulgou nota de repúdio, pediu apuração das autoridades e comparou a situação ao nazismo na Alemanha

Pelo menos dezesseis comerciantes de Arapongas (PR) registraram um boletim de ocorrência na Polícia Civil entre segunda (26) e terça-feira (27) após a circulação de uma lista que propõe boicotar estabelecimentos de proprietários que, supostamente, votaram em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleiçoes presidenciais. Segundo uma empresária que teve o negócio citado, o grupo procurou a polícia por considerar a iniciativa uma forma de perseguição política. O diretório do PT do município divulgou uma nota de repúdio, afirmando que "marcar" comércios era uma prática que foi usada pelo nazismo na Alemanha. (veja abaixo) Em Arapongas, Flávio Bolsonaro (PL) fez 74,75% dos votos válidos contra 25,25% de Lula.
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Em vídeo divulgado nas redes sociais, uma comerciante revelou que procurou a Polícia Civil na companhia de outros empresários citados. Para ela, a preferência nas urnas não deve servir de motivo para prejudicar um estabelecimento. “O problema dessa lista não é a pessoa ter votado ou não em determinado candidato. Não é a pessoa ter vergonha ou não de votar em determinado candidato. É o quão absurdo ela votar no candidato que ela quer e as pessoas querendo fazer lista para boicotar o comércio dela”, declarou. Ela atribuiu ainda a uma pessoa influente da cidade o incentivo à divulgação dos comerciantes que votaram em Lula.
Ao falar das consequências para os negócios, a comerciante destacou que os envolvidos são pequenos empreendedores, que dependem da atividade para manter o próprio sustento. Segundo ela, a tentativa de afastar clientes atinge empresas que trabalham há anos no município. “Somos todos empresários que fazemos hoje para comer amanhã. Somos microempreendedores, somos microempresários”, afirmou.
Procurada pelo TNOnline, ela afirmou que a primeira lista tinha cerca de 20 nomes. A relação foi atualizada e há versões com 30 pessoas citadas circulando em grupos de aplicativos de mensagens. Nem todos, segundo ela, votaram realmente em Lula. "Eu e os outros comerciantes estamos preocupados em perder a clientela, mas há também o sentimento de impunidade".
Ela afirma que as pessoas têm o direito de escolher onde adquirir seus produtos e serviços, mas afirma que a perseguição política e as ofensas são crimes e precisam ser punidos. Além de registrar os boletins de ocorrência, ela afirma que medidas judiciais estão sendo analisadas contra os autores, responsáveis e quem está divulgando a lista. "Fizemos prints e estamos aguardando", disse.
NOTA DE REPÚDIO
O diretório municipal do Partido dos Trabalhadores também se manifestou sobre o episódio. Em nota, a legenda repudiou a elaboração e a divulgação da lista, prestou solidariedade aos comerciantes e pediu que as autoridades apurem os fatos e identifiquem os responsáveis.
O partido defendeu a liberdade de escolha política e o sigilo do voto e criticou tentativas de prejudicar a renda de trabalhadores em razão de suas posições eleitorais.
"Reitero que o PT de Arapongas vem acompanhando e prestando todo o apoio aos comerciantes e, principalmente, a classe trabalhadora, que é a mais afetada. Tais ações não prejudicam o empreendedor, diga-se empresário, mas uma cadeia econômica, pois fazer 'boicote' acarretará em desemprego e, consequentemente, prejudicará toda a cadeia econômica", afirma o presidente do diretório do PT em Arapongas, Tiago Prado.
Veja a nota do PT
O Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) de Arapongas manifesta veemente repúdio e absoluta indignação diante da circulação de listas e mensagens em redes sociais e aplicativos de mensagens que pregam o boicote a estabelecimentos comerciais, prestadores de serviços e profissionais do município, sob a alegação que seriam apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Diante do expressivo número de cidadãos, trabalhadores, comerciantes e entidades que procuraram a direção partidária buscando um posicionamento firme e medidas de contenção, faz-se imperativo nos posicionar em defesa da convivência democrática, da liberdade de consciência e do respeito à lei.
1. Prática Análoga ao Período Mais Sombrio da História
A tática covarde de rotular, listar e tentar asfixiar economicamente cidadãos e estabelecimentos em razão de suas convicções políticas e ideológicas não é novidade. Um exemplo documentado ocorreu na Alemanha, em 1º de abril de 1933, quando o regime nazista promoveu um boicote a estabelecimentos de propriedade judaica. Integrantes da SA e da SS se posicionaram diante de lojas e consultórios, marcando as portas e vitrines das lojas de famílias judias com a estrela amarela e a inscrição "Kauf nicht bei Juden" (Não compre de judeus), incitando a população ao ódio e ao cerco econômico.
Importar e normalizar práticas de segregação ideológica no coração de Arapongas atenta diretamente contra a dignidade humana e representa um retrocesso civilizatório inadmissível. A referência histórica serve para recordar que campanhas de estigmatização e exclusão econômica podem contribuir para normalizar a discriminação e a violência contra grupos identificados como indesejáveis.
Por essa razão, listas que expõem pessoas e estabelecimentos para estimular sua punição econômica por convicções políticas devem ser tratadas com seriedade. A divergência política é legítima em uma democracia; a intimidação e a perseguição não são formas aceitáveis de participação política.
2. Violação Constitucional, Crime contra a Ordem Econômica e Ilegalidade
A tentativa de linchamento comercial não atinge apenas o proprietário do estabelecimento: ela destrói a própria cadeia socioeconômica de Arapongas. Ao forçar o esvaziamento e o prejuízo de um comércio local, atinge-se na ponta o fornecedor, o prestador de serviços e, fundamentalmente, os trabalhadores e suas famílias. A redução de vendas gera demissões; a demissão retira a renda que circularia nos bairros populares, enfraquecendo todo o comércio da nossa cidade.
Sob o ponto de vista jurídico, essa prática viola frontalmente fundamentos constitucionais e legais.
A Constituição Federal estabelece princípios relevantes para a análise de situações como essas. Entre eles estão a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político (art. 1º, incisos III e V); o objetivo de promover o bem de todos, sem preconceitos ou discriminações (art. 3º, inciso IV); e as liberdades de manifestação do pensamento e de consciência, bem como a proteção da honra e da imagem (art. 5º, incisos IV, VI e X).
A liberdade de expressão e a liberdade de escolha dos consumidores são direitos importantes. Contudo, seu exercício deve ser considerado em conjunto com os demais direitos constitucionais. A divulgação de conteúdo que exponha, ameace, difame ou incite perseguição contra pessoas pode gerar consequências jurídicas, conforme o conteúdo, o alcance, a intenção e os efeitos concretos da conduta.
O artigo 170 da Constituição prevê, entre os fundamentos da ordem econômica, a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa. Já a Lei nº 12.529/2011, especialmente em seu artigo 36, trata de condutas que podem configurar infração à ordem econômica quando tenham por objeto ou possam produzir efeitos como limitar ou prejudicar a livre concorrência ou a livre iniciativa.
Da mesma forma, a eventual ocorrência de crimes contra a honra, ameaça ou outros ilícitos podem configurar os crimes de difamação (Art. 139 do CP), injúria (Art. 140 do CP), ameaça (Art. 147 do CP) e associação criminosa (Art. 288 do CP), além de reparação cível por danos morais e materiais individuais e coletivos.
3. Condenação Enérgica ao Assédio Eleitoral e à Incitação a Demissões
Repudiamos com a mesma contundência as declarações e ameaças de assédio eleitoral propagadas nesta semana por empresários e lideranças políticas da região, a exemplo da vereadora de Londrina e deputada estadual eleita que usou as redes sociais para incitar patrões a demitirem funcionários e romperem vínculos com trabalhadores por suas opções de voto.
Coagir, ameaçar ou dispensar um trabalhador por sua escolha partidária e ideológica constitui grave assédio eleitoral e discriminação ilícita nas relações de trabalho (violando o Art. 7º, I e XXX da CF/88 e a Lei Federal nº 9.029/1995), conduta rigorosamente apurada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e passível de reintegração ao emprego, além de pesadas indenizações por danos morais individuais e coletivos.
A liberdade de escolha política do trabalhador deve ser respeitada. Pressionar, ameaçar ou prejudicar alguém no emprego para influenciar seu voto pode caracterizar assédio eleitoral, conforme as circunstâncias, e ser objeto de apuração pelos órgãos competentes, inclusive pelo Ministério Público do Trabalho.
O ambiente de trabalho não deve ser usado para constranger trabalhadores ou interferir em sua liberdade política. O sustento de uma pessoa e de sua família não pode ser instrumento de pressão eleitoral.
4. Violência Política em Arapongas
O Diretório Municipal registra também que acompanha de perto o lamentável episódio de violência ocorrido em Arapongas, na Praça Mauá, onde um jovem que lanchava no local foi covardemente agredido por um indivíduo motivado por ódio e intolerância política. Esse ato de selvageria, fruto do mesmo veneno destilado nas redes, já está sendo monitorado junto às forças de segurança pública e ao meio judicial para que o agressor responda civil e criminalmente por seus atos. Não aceitaremos que a violência física ou simbólica dite a rotina das praças e ruas de nossa cidade.
5. Solidariedade, Suporte Jurídico e Canal de Denúncias
O PT de Arapongas presta sua total e irrestrita solidariedade a cada comerciante, empreendedor e profissional injustamente colocado nessa lista nefasta, e estende seu abraço principalmente aos trabalhadores e trabalhadoras desses locais, que são as principais vítimas da irresponsabilidade dos extremistas.
Informamos que o partido está desde o início monitorando a situação, colhendo elementos probatórios (capturas de tela, registros e identificação de números) e colocando sua assessoria à disposição dos comerciantes e trabalhadores atingidos para os devidos encaminhamentos perante a Delegacia de Polícia, Ministério Público do Estado do Paraná (MPPR) e Ministério Público do Trabalho (MPT).
Em articulação com a Direção Estadual, divulgamos o canal oficial do PT Paraná para o recebimento de relatos de violência política, ameaças, agressões, perseguições e intimidações no ambiente de trabalho, no comércio ou em espaços públicos.
Sofreu ou presenciou uma situação de violência política ou assédio eleitoral? Denuncie.
Telefone/WhatsApp: (41) 9993-3793
E-mail: [email protected]
Arapongas é uma cidade construída pela força de sua gente trabalhadora, plural e pacífica. O ódio, o revanchismo de gabinete e o coronelismo não triunfarão sobre o Estado Democrático de Direito.
Arapongas/PR, 27 de outubro de 2026.
