Único engraxate de Apucarana mantém ofício há 31 anos no centro da cidade
Trabalho que já foi muito popular nas décadas passadas, hoje está em extinção; Itamar se mantém no mercado e inova com a limpeza rápida de tênis
O apucaranense Itamar Gonçalves, 46 anos, é o único engraxate em atividade na cidade atualmente. Morador do Jardim Marissol, em Apucarana, o profissional atua nas ruas do centro da cidade há 31 anos. Sua rotina inclui caminhadas diárias pelas praças, logradouros centrais e pelo terminal urbano para abordar a clientela.
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Nas décadas passadas, o cenário urbano brasileiro era marcado pelo som rítmico das escovas nas caixas de madeira. A profissão de engraxate moldou o perfil de milhares de jovens no país. Eles eram, em sua maioria, garotos de origem humilde que viam no ofício de engraxate a primeira oportunidade de sustento e geração de renda.

Espalhados por praças e estações, esses trabalhadores davam brilho aos sapatos e testemunhavam o cotidiano e movimento das cidades. Com a popularização de calçados fabricados com materiais sintéticos, a profissão perdeu espaço e esses profissionais tornaram-se raridades no país. Atualmente, o ofício é considerado em extinção.
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Itamar começou a trabalhar aos 15 anos. A primeira caixa de engraxate foi construída pelo pai dele. O cenário no início da carreira era diferente do atual. Dezenas de jovens dividiam o espaço na praça da Catedral de Apucarana. A disputa por clientes gerava concorrência direta no local.
"Tinha um monte de molecada [trabalhando de engraxate]. Um fazia o seu trabalho, outro corria na frente. Saía briga. Chegava a quebrar a caixa na cabeça do outro", lembra Itamar.
O serviço de engraxate custa R$ 8. A abordagem ocorre diretamente nas ruas. O trabalhador usa graxa nas cores preta e marrom para o serviço tradicional em couro. Ele também incorporou a limpeza de calçados de tecido, inovando o trabalho e expandindo o potencial de clientes.
"Agora estou limpando tênis também. O tênis não fica 100%, dá só para tirar a poeira. O tradicional mesmo é a graxa. Se engraxar hoje, o seu sapato vai ficar tinindo", diz.
A aceitação do serviço pelo público varia durante as abordagens. O trabalhador relata situações de indiferença nas ruas. Outra parte do público valoriza o ofício. O profissional recebe comissões extras em alguns atendimentos.
"É um trabalho que continua sendo preconceito para uns e para outros elogio. Às vezes você conversa com a pessoa, pergunta se quer engraxar o sapato, e tem uns que não respondem. Mas quem já faz toda semana dá total apoio", relata o engraxate.
A clientela fixa inclui advogados, taxistas, banqueiros e comerciantes. O dia de maior movimento financeiro é a quinta-feira. O clima também afeta a demanda pelo serviço. Dias chuvosos sujam os sapatos e aumentam a busca por limpeza logo após as precipitações.
O taxista Fernando Augusto Mendes Ferreira, cliente há 12 anos, confirma a exclusividade do serviço no município. "Até um tempo atrás tinha uns outros aí, mas quem ficou aqui foi só o Itamar. O Itamar é figura carimbada aqui da praça", afirma o cliente.

Outro cliente há longo tempo é o assessor parlamentar Jean Assunção Oliveira, que utiliza dos dois serviços do engraxate, tanto a limpeza de sapatos, quanto a limpeza de tênis.
"Conheço o Itamar há vários anos, da época em que eu era menor aprendiz em uma agência bancária e desde então sempre que possível faço questão de contratar o serviço dele", explica.

Como ocorre com todo empreendedor, a função do engraxate também exige disciplina e rotina fixa. O expediente do Itamar ocorre de segunda a sexta-feira, das 09h às 16h30. Já aos sábados, o atendimento vai das 09h às 18h. Sempre em movimento, ele vai buscando clientes em sua ronda que se extende entre o Terminal Urbano, a Praça Rui Barbosa, a Praça da Onça, a Praça do Redondo e proximidades.
"Cada dia é uma novela. Sair na rua e abordar. Tem gente que acha caro o preço de R$ 8 para engraxar o sapato. Tem outros que apoiam e dão até comissão além dos R$ 8. Tem gente que fala que não tem dinheiro na hora e deixa para a próxima oportunidade. Tem que sair abordando um por um todos os dias", observa.
Além da abordagem feita corpo a corpo, nosso sobrevivente de um ofício em extinção também modernizou sua agenda.
"Eu agendo clientes pelo WhatsApp. É só a pessoa entrar em contato comigo, que eu vou até ela no horário marcado e fazemos o serviço. Se me permite divulgar, o contato é (43) 99916-7147. Estou pronto para atender em toda a cidade", divulga o engraxate ao finalizar a entrevista.
