“Prometi continuar”: viúva mantém legado de solidariedade após morte de marido
Após a morte do marido, Liliane assumiu a missão de continuar ajudando famílias com empréstimo gratuito de equipamentos hospitalares em Apucarana.
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Cinco meses após perder o marido para um câncer no intestino, a moradora de Apucarana Liliane Débora de França Lopes tenta reorganizar a própria vida enquanto mantém de pé a obra social criada pelo comerciante Vlamir Stabile Lopes.
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Conhecido em Apucarana pelo trabalho voluntário de empréstimo de cadeiras de rodas, muletas, andadores e camas hospitalares, Vlamir morreu no dia 24 de novembro de 2025, aos 61 anos. Agora, a esposa assumiu a missão de continuar ajudando famílias que precisam dos equipamentos. “Na hora da morte dele, eu prometi que eu e meus filhos continuaríamos a obra”, conta Liliane.
Durante mais de 20 anos, o barracão de Vlamir se tornou referência para pessoas que precisavam de equipamentos hospitalares gratuitamente. O comerciante recebia itens usados, reformava as peças e emprestava novamente para famílias da região.
Depois da morte dele, Liliane precisou adaptar a estrutura. Sem conseguir realizar os reparos que o marido fazia, ela reduziu a quantidade de equipamentos e passou a investir em materiais novos e mais leves. “Ele gostava de arrumar tudo, trocar rodinha, soldar. Eu não sei fazer isso. Então precisei diminuir a quantidade e melhorar a qualidade”, afirma.
Hoje, os atendimentos funcionam em uma sala menor, em frente ao local onde ela trabalha. Para conseguir manter o atendimento, Liliane passou a dividir a missão com outras pessoas que também atuam de forma solidária na cidade.
Parte dos equipamentos antigos foi repassada para o Instituto Peregrinos da Fé, coordenado por Alfredão e Edson, que realizam empréstimos e reformas de cadeiras de rodas, camas hospitalares e outros materiais.
Ela também conta com apoio de Ivan, da Med Bombeiros APU, que trabalha com aluguel de equipamentos hospitalares, além da Loja Ortopédica São José, que auxilia famílias com venda e locação de materiais.
Contatos de apoio:
- Instituto Peregrinos da Fé – Alfredão e Edson: (43) 99974-0990
- Med Bombeiros APU – Ivan: (43) 99659-5329
- Loja Ortopédica São José: (43) 99660-0334
“Quando eu não tenho determinado equipamento, encaminho para quem pode ajudar. Tem muita gente boa fazendo esse trabalho também”, diz.
Os empréstimos continuam sendo feitos gratuitamente e são mantidos principalmente pela arrecadação de tampinhas plásticas e lacres de alumínio. Campanhas organizadas por amigos da família ajudaram Liliane a comprar novos equipamentos após a morte de Vlamir. “Conseguimos comprar 12 cadeiras de rodas novas e seis cadeiras de banho. Coloquei o nome dele nas cadeiras”, afirma.
Liliane conta que passou a entender ainda mais a importância da iniciativa durante o tratamento do marido. Nos últimos meses de vida, o próprio Vlamir precisou usar cadeira de rodas, cadeira de banho e andador dentro de casa. “Foi ali que eu vi o quanto uma cadeira boa faz diferença para quem está sofrendo.”
Mesmo debilitado, ele continuava recebendo mensagens de pessoas pedindo ajuda. “Ele falava para eu ir no barracão pegar equipamento para quem precisava. Mesmo doente, continuava pensando nos outros.”
“Parecia que ele estava dizendo para continuar”.
Liliane afirma que pequenos momentos ajudam a família a enfrentar o luto desde a morte de Vlamir. Um dos episódios mais marcantes aconteceu poucos dias após o falecimento, enquanto ela e os filhos resolviam documentos no cartório.
Segundo ela, os três estavam inseguros sobre as decisões que precisavam tomar quando um andarilho passou em frente ao local tocando gaita. “Era um sol muito forte, meio-dia, não tinha ninguém na rua. De repente, passou um homem tocando gaita. Eu, meu filho e minha filha só nos olhamos”, lembra.
Para a família, o momento foi interpretado como uma lembrança do próprio Vlamir, conhecido pelo jeito alegre e pela paixão pela música. Tocar gaita era uma das coisas que ele mais amava. “Parecia que ele estava dizendo: ‘Estou bem. Continuem’. Foi muito marcante para nós.”
Além do trabalho solidário, Vlamir também mantinha um museu particular com cerca de cinco mil peças antigas, incluindo bicicletas, discos, brinquedos, máquinas de escrever e câmeras fotográficas.
Mas, para Liliane, o maior legado deixado pelo marido continua sendo a solidariedade. “O legado dele foi fazer o bem sem olhar para quem.”