Professora de Apucarana relata luta contra o câncer em livro
Na obra, Leila Pryjma reflete sobre o tempo, a importância da rede de apoio e a urgência de viver o presente

A professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), doutora em Educação e neurocientista Leila Pryjma, de 51 anos, de Apucarana, transformou o diagnóstico de câncer de mama na inspiração para o livro “Eu não tinha tempo para ter câncer”. Na obra, que deve ser concluída nas próximas semanas, a pesquisadora reflete sobre a gestão do tempo, a importância da rede de apoio e a urgência de viver o presente, deixando uma mensagem de reflexão neste Outubro Rosa.
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Leila conta que recebeu o diagnóstico de câncer de mama invasivo, com metástases ósseas, em julho deste ano. Acostumada a dedicar a vida ao estudo da aprendizagem e das emoções humanas, a notícia exigiu uma reorganização de responsabilidades. "O adoecimento exigiu que eu interrompesse atividades e olhasse para o meu corpo com uma atenção que a rotina nem sempre permitia. Foi preciso reconhecer que a vida também acontece quando precisamos parar, receber cuidado e mudar os planos", relata.
Mesmo após a confirmação de que a doença havia atingido os ossos, a professora buscou compreender o diagnóstico com serenidade, fé e confiança na ciência. “Lembro da fala da médica dizendo que era câncer, que era grave e grande. Nessa hora, seu chão muda de lugar e você vive um luto de você mesma”, relata Leila.
Leila optou por realizar seu tratamento em Apucarana, destacando a excelência das equipes locais. Para lidar com a medicação, a professora utiliza uma analogia carinhosa, chamando os remédios de ‘soldadinhos do bem’. Como neurocientista, ela sabe que o estado de alerta afeta o organismo e busca no aprendizado contínuo formas de manter o equilíbrio. "Há uma pergunta que sempre fazemos na neurociência: quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez? Então estou desafiando a minha mente", conta Leila, que tem montado book nooks, feito crochê, pintura, modelagem 3D e costura.
A mudança de ritmo a ensinou a receber cuidado. A casa continua cheia de afeto, flores e recados. A irmã, Vera, fechou o apartamento em Curitiba para cuidar dela em Apucarana, e o irmão, Amilton, faz visitas diárias. O marido, Valmir, o filho, Gabriel, e a neta, Yasmin, completam seu principal porto seguro. "Há uma dignidade muito grande em permitir que alguém cuide de nós. São pequenos remedinhos que só o amor genuíno e sincero é capaz de oferecer. Pensar na minha neta crescendo desperta em mim muitos desejos de futuro. Quero acompanhar suas descobertas, conhecer a pessoa que ela vai se tornando e continuar presente em sua história. Quero compartilhar a vida com meu filho, meu marido e minha família. Quero participar das conversas, das comemorações e daqueles dias comuns que, quando olhamos com atenção, são tão preciosos. Quero estar nas fotografias que ainda vamos tirar”, comenta.
"Hoje, esses vínculos me lembram, de uma maneira muito concreta, por que desejo continuar aqui. Tenho conhecimentos para compartilhar, livros para escrever e projetos para realizar. E tenho um desejo imenso de continuar participando da vida das pessoas que amo, acompanhando suas mudanças, suas descobertas e suas alegrias", acrescenta.
Paciente além do exame
Um ponto defendido pela pesquisadora é a necessidade de um cuidado atento que enxergue o paciente além do exame. Leila ressalta a importância de um local seguro de escuta. "É preciso ter um local seguro, em que eu possa ser eu mesma, sem julgamento, sem palestrina motivacional. Nessa zona de escuta, muitas vezes, o ouvinte culpa a pessoa que está com câncer, talvez até mesmo sem perceber. Basta ouvir", pontua.
Ela reforça que o paciente precisa ter a liberdade de expressar suas fragilidades. "Ninguém deveria sentir que precisa esconder seu sofrimento para continuar merecendo admiração. Poder dizer ‘hoje está difícil’ também é uma forma de participar do próprio tratamento", reforça.
Livro também é para quem está saudável
Seu livro, além de relatar a própria vivência, serve como um alerta para quem está saudável e imerso na pressa do dia a dia. "Hoje, penso com mais atenção em tudo aquilo que costumamos deixar para depois. Prestem atenção à vida que vocês estão vivendo agora", aconselha.
E neste mês de conscientização, Leila az questão de desmistificar o diagnóstico. "Gostaria que as pessoas entendessem que o câncer de mama metastático é uma condição séria, mas que existem tratamentos capazes de controlar a doença. Algumas pessoas vivem por anos com a doença controlada", explica. Ela frisa que a evolução de uma doença jamais deve ser usada para julgar a fé ou o merecimento de alguém.
Aos que estão em tratamento, a escritora deixa uma mensagem de encorajamento. "Você merece cuidado, informação, respeito e amor em todos os seus dias". Sobre si mesma, a neurocientista conclui com o olhar voltado para o futuro: "Ainda quero viver muitas coisas. E quero viver com presença suficiente para perceber a felicidade quando ela estiver acontecendo", conclui.
Tratamento vai além da quimioterapia
O mastologista Ribamar Maroneze é um dos médicos que acompanha Leila. Ele destaca que o sucesso do tratamento oncológico está diretamente ligado à presença de uma rede de apoio sólida e à espiritualidade da paciente.
"A medicina pode avançar muito em drogas com eficácia melhor, mas se a gente não tiver a rede de apoio familiar e a espiritualidade, nenhum tratamento funciona", afirma o especialista, ressaltando que Leila possui esse círculo de proteção muito presente.
O médico faz um alerta sobre a realidade de muitas pacientes que não contam com a mesma estrutura, enfrentando o abandono em um momento de extrema vulnerabilidade. "No serviço público, às vezes, a gente vê que muitos maridos abandonam o lar e a mulher fica sozinha. Isso é muito ruim até para a condição do tratamento. E, quando não acontece no diagnóstico, acontece depois, com as sobreviventes do câncer", relata.
"A gente precisa colocar para a sociedade que o tratamento do câncer de mama vai além da quimioterapia. Temos que olhar para essa mulher para que ela seja reinserida no convívio da sociedade e no bem-estar familiar e conjugal", conclui o médico.
