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HALLOWEEN

Por que amamos tomar sustos? Apucaranenses explicam fascínio pelo terror

Neurocientista, psicóloga, cineasta e fã do gênero explicam o que torna filmes de terror e histórias de crimes reais tão atraentes

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Por que amamos tomar sustos? Apucaranenses explicam fascínio pelo terror
Autor Shelley Duvallno em cena clássica do filme 'O iluminado' (1980) - Foto: reprodução

O que leva alguém a sentir prazer ao assistir a um filme de terror ou acompanhar uma história de crime real? Neste sábado de Halloween (31), o interesse por sustos, suspense e histórias assustadoras ganha ainda mais destaque. Para entender por que o medo, uma reação natural de defesa, também pode se transformar em diversão, o TNOnline ouviu uma fã do gênero, um cineasta e especialistas em neurociência e psicologia de Apucarana, Paraná. A explicação envolve desde as reações químicas do cérebro até a sensação de controle e o alívio experimentado depois de um susto.

- LEIA MAIS: Halloween: a história, a origem, as tradições e o dia das bruxas no Brasil

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A professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), doutora em Educação e neurocientista Leila Pryjma, explica que o medo é uma das respostas emocionais mais antigas da humanidade e tem papel fundamental na sobrevivência. Diante de algo interpretado como ameaça, diferentes estruturas cerebrais entram em ação antes mesmo de uma avaliação consciente completa da situação.

O susto e o medo, porém, não são exatamente a mesma coisa. O primeiro é uma resposta reflexa a um estímulo repentino, como um barulho forte. O medo envolve uma rede mais complexa de avaliação da ameaça, memória e respostas corporais. A amígdala cerebral participa desse processo, mas trabalha em conjunto com áreas como hipotálamo, hipocampo, córtex pré-frontal e estruturas do tronco encefálico.

O resultado aparece rapidamente no corpo: coração acelerado, mudanças na respiração, tensão muscular, suor e pupilas dilatadas. Noradrenalina e adrenalina participam da preparação do organismo para reagir, enquanto o cortisol pode aparecer em situações de estresse mais prolongadas.

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A diferença entre o pânico e a diversão começa quando o cérebro reconhece que, apesar de toda essa reação física, não existe uma ameaça concreta.

“O prazer não está necessariamente no perigo, mas na possibilidade de experimentar uma intensa ativação emocional sem enfrentar as consequências de uma ameaça real”, explica Leila.

É o que acontece com quem leva um susto durante um filme, grita e, poucos segundos depois, começa a rir. O organismo reagiu como se precisasse se proteger, mas a mente conseguiu contextualizar a situação e reconhecer que tudo está sob controle.

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Segundo a neurocientista, circuitos relacionados à recompensa e sistemas de sinalização dopaminérgica podem participar dessa experiência, mas não é correto reduzir o prazer do terror a uma simples “descarga de dopamina”. A intensidade, o contexto e as características de cada pessoa são determinantes. Há, inclusive, um limite: medo demais pode deixar de ser divertido.

Controle transforma medo em diversão

É justamente a sensação de controle que a psicóloga Patrícia Colombari, de Apucarana, aponta como um dos principais elementos para compreender o fascínio pelo terror. Ao contrário de uma ameaça real, o filme assustador pode ser interrompido. A pessoa pode fechar os olhos, abaixar o volume ou simplesmente desligar a televisão.

“A gente sabe que está no sofá de casa, que pode desligar a TV a qualquer segundo ou tapar os olhos se ficar pesado demais. Essa certeza de que você está no comando faz o cérebro traduzir a adrenalina não como desespero, mas como pura diversão”, afirma.

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Para Patrícia, esse tipo de entretenimento também pode funcionar como uma mudança temporária do foco emocional. Problemas cotidianos (trabalho, contas, conflitos pessoais e incertezas sobre o futuro) normalmente são complexos e não apresentam solução imediata. O terror oferece um medo diferente, externo, definido e, principalmente, com hora para acabar.

“A gente foge dos monstros reais da nossa rotina, que a gente não sabe como derrotar, para enfrentar um monstro na tela que a gente sabe que vai sumir assim que os créditos subirem”, resume a psicóloga.

Isso também ajuda a explicar por que a mesma experiência que diverte uma pessoa pode ser extremamente desagradável para outra. Quem aprecia terror tende a tolerar melhor aquela ativação física intensa. Para outras pessoas, o sistema de alerta é acionado de maneira tão desconfortável que não existe prazer capaz de compensar a tensão.

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O medo como linguagem do cinema

No cinema, provocar medo não depende apenas da aparição repentina de um monstro ou de uma cena violenta. A construção da expectativa é parte essencial da experiência.

Recursos como som, silêncio, enquadramento, iluminação, montagem e o tempo que antecede uma revelação ajudam a conduzir emocionalmente o espectador. Muitas vezes, a expectativa de que alguma coisa vai acontecer é tão importante quanto o próprio susto.

Essa construção encontra uma resposta direta no funcionamento cerebral. Conforme explica a neurocientista Leila Pryjma, o sistema nervoso está constantemente formulando previsões sobre o ambiente. Uma porta que se abre devagar, um corredor vazio ou um ruído cuja origem não aparece imediatamente fazem o espectador tentar antecipar o próximo acontecimento.

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Quando a previsão é quebrada, a atenção aumenta. Depois do susto, a tensão pode dar lugar ao alívio. É uma sequência que a indústria do terror explora com precisão: expectativa, medo, resolução e relaxamento.

Para Leila, é por isso que o produto oferecido por esse mercado vai muito além do susto. São experiências de incerteza, curiosidade, excitação e posterior sensação de segurança.

True Crime: Baseado em fatos reais

Se nos filmes existe a certeza de que monstros e assassinos fazem parte de uma ficção, o true crime acrescenta outro componente à equação, aquilo realmente aconteceu. O interesse por assassinatos, desaparecimentos e investigações pode estar relacionado ao que a psicologia chama de curiosidade mórbida, o desejo de obter informações sobre situações perigosas, violentas ou ameaçadoras.

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Segundo a neurocientista, isso não significa aprovação da violência ou prazer diante do sofrimento das vítimas. Parte do interesse pode surgir da tentativa de compreender riscos, motivações humanas e relações de causa e consequência. A investigação ainda cria uma lacuna de informação que mantém o espectador tentando encontrar a resposta para o mistério.

“O suspense não prende nossa atenção apenas pelo que mostra, mas principalmente pelo que ainda não revelou”, afirma a neurocientista.

É justamente esse componente investigativo que atrai a agente universitária e técnica administrativa Karina Iesen Santiago, de 31 anos. Fã de true crime, ela lembra que uma das primeiras produções a despertar seu interesse pelo gênero foi Mindhunter, da Netflix, série sobre o início dos estudos do FBI a respeito de assassinos em série.

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Karina diz preferir crimes reais a histórias envolvendo fantasmas ou outros elementos sobrenaturais. Para ela, parte do interesse está em tentar entender o comportamento de quem cometeu o crime e acompanhar o caminho percorrido pelos investigadores.

“A curiosidade me atrai, mas também as resoluções e o trabalho que um investigador faz para chegar até aquela pessoa. Até mesmo a gente, como leitor ou consumidor de séries assim, tenta desvendar os crimes”, conta.

Karina já escolheu o repertório para quem pretende aproveitar o fim de semana dessa maneira. Entre as séries, indica O Homem das Castanhas e Ratched, ambas da Netflix. Nos filmes, as escolhas são O Homem Invisível, disponível no Prime Video, e Uma Família Feliz, no Globoplay. Para quem prefere livros, a fã destaca as obras do escritor brasileiro Raphael Montes.

Do fascínio pelo terror à carreira de cineasta

Para o cineasta e diretor apucaranense Semi Salomão, o interesse pelo terror começou ainda na infância, no final da década de 1980, quando assistiu ao filme A Casa do Espanto na televisão, acompanhado da mãe e de outros familiares. As aparições repentinas de monstros e fantasmas provocavam sustos em toda a família e se tornaram uma lembrança marcante. “Eu lembro que todo mundo se assustava ali, porque de repente apareciam monstros, apareciam fantasmas, e a gente pulava da cadeira mesmo”, recorda.

Com o passar dos anos, outras produções ampliaram sua percepção sobre o gênero. Entre as referências estão O Exorcista e Poltergeist, filmes que, segundo ele, não dependem exclusivamente de sustos, mas exploram atmosferas de tensão, dramas familiares e o enfrentamento de forças desconhecidas.



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AutorFoto: reprodução

Para Semi, a qualidade de um filme de terror está justamente na capacidade de despertar sentimentos que ultrapassam o medo imediato. “Um filme bom de terror é um filme que te leva para as suas profundezas, para você sentir várias emoções”, afirma. Ele acrescenta que “o susto é a superficialidade do filme”, destacando que as melhores produções também trabalham com o subconsciente do espectador.

Essa concepção aparece em A Bruxa do Cemitério, produção lançada em 2004 e dirigida pelo próprio cineasta apucaranense, que se tornou uma obra cult do terror brasileiro. Segundo Semi, o filme utiliza o medo para explorar diferentes interpretações sobre os acontecimentos. A história envolve personagens que consumiram drogas e passam por situações perturbadoras, deixando dúvidas sobre o que realmente aconteceu.

“Será que foi uma alucinação, ou será que é um efeito daquilo que a pessoa usou?”, questiona o diretor ao explicar a proposta da obra. O filme também aborda o medo da escuridão, de ambientes desconhecidos e da necessidade de enfrentar os próprios temores.



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AutorFoto: reprodução

Semi explica que essa preocupação com as diferentes dimensões emocionais faz parte de seu processo de criação. “Eu trabalho com camadas, eu trabalho com emoções profundas e também emoções superficiais, que é aquela que aparece à vista, e aquela que está escondida, que o filme vai te despertar”, resume.

Para o cineasta, portanto, uma boa história de terror não termina quando o susto passa. O verdadeiro impacto está nas emoções e reflexões que a narrativa consegue provocar no espectador. "As pessoas querem sair da realidade delas. Do ponto de vista psicológico, o filme de terror pode agir até como um remédio, uma reflexão", analisa.


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