Ensino superior se torna motor de desenvolvimento e renda em Apucarana
Segundo Inep, número de instituições mais que dobrou em 10 anos, atraindo milhares de estudantes injetando fôlego no comércio e serviços locais

Em apenas uma década, Apucarana transformou seu cenário educacional e se consolidou como um polo de ensino superior no norte do Paraná. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelam que, entre 2014 e 2024, o número de instituições na cidade passou de 11 para 28, enquanto a oferta de cursos disparou de 96 para 668, passando de 5,7 mil para mais de 8,3 mil alunos matriculados. Em relação ao número de matrículas, o crescimento chega a 45% com impacto direto na economia local.
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A expansão ganhou novo peso com o anúncio da implantação do curso de medicina no campus da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), com investimento de R$ 79 milhões, e com a possibilidade de implantação de um centro de referência do Instituto Federal do Paraná (IFPR) no município. Também há investimentos em andamento no campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), entre eles o Centro de Inovação Têxtil (Citex), voltado ao setor produtivo, com aporte financeiro de R$ 4,5 milhões do governo estadual, e a expectativa da implantação de outro curso de medicina na Faculdade de Apucarana (FAP), da rede privada. O movimento amplia os efeitos do ensino superior sobre comércio, serviços, mercado imobiliário, saúde e mercado de trabalho.
Embora parte do crescimento esteja ligada à educação a distância, o ensino presencial tem impacto direto na economia da cidade. O último Censo do Ensino Superior do Inep, divulgado em 2024, aponta mais de 4,2 mil matrículas no ensino presencial. Em muitos casos, estudantes de outras regiões passam a morar, trabalhar e consumir em Apucarana.
“Mais estudantes e profissionais circulando significam maior demanda em restaurantes, supermercados, farmácias, papelarias, transporte, academias e diversos outros segmentos. O ensino superior é um dos grandes motores da economia urbana moderna”, pontua o presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Apucarana (Acia), Elio Pinto.
Outro setor que tende a ser beneficiado é o imobiliário. “Naturalmente, haverá aumento na procura por moradias, apartamentos, kitnets e imóveis comerciais. Isso estimula novos investimentos, amplia a valorização imobiliária e incentiva a construção civil. Apucarana passa a se consolidar ainda mais como polo regional de educação e serviços”, observa.
Para o presidente da Acia, o momento exige planejamento e visão de futuro. “A cidade precisa estar preparada para essa nova fase, investindo em infraestrutura, mobilidade, habitação e qualificação. O curso de medicina da Unespar não é apenas uma conquista acadêmica, mas uma oportunidade estratégica de desenvolvimento econômico e social para Apucarana”, finaliza Elio Pinto.
Segundo ele, a graduação deve atrair estudantes, professores, pesquisadores e investimentos. “Isso movimenta o comércio, aquece o setor de serviços, fortalece a área da saúde e cria um novo ambiente de crescimento para Apucarana”, diz.
A presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Apucarana, Aída Assunção, também avalia que a expansão tem efeito direto sobre a economia. “Para o comércio, isso é extremamente positivo. Vêm estudantes de fora, vêm famílias, há valorização na área imobiliária e cresce o comércio em torno das universidades”, afirma.
Para Aída, a ampliação também permite que moradores da cidade e região estudem sem deixar seus municípios. “O mais importante é que os jovens tenham oportunidade de estudar e ficar na nossa cidade. Isso diminui despesas para quem é daqui e traz gente de fora, que acrescenta à economia, ao comércio e à gastronomia”, diz.
Novo perfil de imóveis
O imobiliarista João Ceriani aponta um crescimento expressivo na demanda por moradias menores, como apartamentos compactos e kitnets. “A gente percebe já há um bom tempo. Ano a ano, esse grupo vem se avolumando”, destaca.
A expectativa é que esse movimento ganhe ainda mais força com a consolidação do curso de medicina na Unespar. “Agora, tudo indica que vamos viver mais um aumento com o curso de medicina. É um impacto grande, e a gente sempre percebe principalmente em janeiro, nos começos dos anos, quando chegam pessoas de São Paulo, do Nordeste do país, entre outros estados”, assinala Ceriani.
Em relação à localização, o empresário observa uma divisão entre a conveniência de morar perto do campus e o desejo pelas facilidades da região central. “Hoje, há talvez uma oferta não localizada no entorno, mas a cidade tem imóveis sendo ofertados, e ela vai se adaptando à medida que vão surgindo as demandas”, explicou. Para Ceriani, além do impacto imediato durante o período de graduação, o fluxo de estudantes também gera frutos a longo prazo, já que muitos decidem permanecer no município após a formatura. “Não é todo mundo que se retira, e muitos ficarão aqui na cidade, é comum isso acontecer”, conclui.

Estudantes vieram para a cidade estudar e trabalhar
A estudante universitária Letícia Conceição Alves, 19 anos, deixou Dias d'Ávila, na Bahia, para cursar Secretariado Executivo Trilíngue na Unespar. Ela mora em um quarto alugado, trabalha e faz compras em Apucarana. Segundo a estudante, a mudança foi motivada pela faculdade e por oportunidades de emprego que não encontrava na região onde vivia. "A cidade é tranquila para estudar e oferece boas condições de vida", afirma.
Outra estudante que se mudou para a cidade é Kelly Cavalcanti Martins, 24 anos, que veio de São Paulo para cursar Secretariado Executivo Trilíngue na Unespar. Ela chegou a Apucarana há três meses e mora de aluguel. No fim do ano, pretende trazer as duas filhas e a avó para viver com ela.
Kelly afirma que escolheu a cidade após pesquisar custo de vida, mobilidade e ambiente. Para ela, Apucarana tem aluguel mais acessível que São Paulo e Minas Gerais, onde já morou, além de rotina mais adequada para criar os filhos. “No meu contexto, que tenho filhos, Apucarana é ideal”, afirma. A estudante pretende continuar na cidade após a formatura.
Venezuelana estuda e reconstrói vida em Apucarana
A venezuelana Nathalia Nadeska Sandoval Chirinos, 42 anos, chegou a Apucarana em 2020 com o filho, hoje com 17 anos. Aluna de Letras - Espanhol na Unespar, ela iniciou o processo de naturalização brasileira e pretende concluir o curso, fazer mestrado e prestar concurso para professora de espanhol.
Nathalia conta que escolheu Apucarana porque recebeu acolhimento e ouviu que a cidade era boa para trabalhar e morar. “Eu cheguei a Apucarana com quatro malas e duas mochilas”, relata. Desde então, alugou casa, comprou móveis aos poucos e passou a consumir no comércio local. Segundo ela, a maior parte dos gastos fica no supermercado.
Com colaboração de Vitor Flores.
