Gleisi defende expansão da saúde e representatividade feminina no Senado
Ex-senadora argumenta que o Paraná perdeu espaço em Brasília e defende retomada de protagonismo
TNOnline TV
A candidata ao Senado pelo Paraná, Gleisi Hoffmann (PT), participou nesta terça-feira (25) da sabatina promovida pela Tribuna do Norte e TNOnline e defendeu a ampliação dos investimentos em saúde, a interiorização dos serviços médicos e o aumento da participação feminina na política. Ex-senadora e ex-ministra da Casa Civil, Gleisi também falou sobre sua experiência no Congresso, a relação com um Senado que considera distante da população paranaense e os desafios de fazer política em um cenário de polarização.
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Durante a entrevista, a candidata afirmou que pretende retomar o protagonismo que, segundo ela, o Paraná já teve no Senado e criticou a atuação dos atuais representantes do Estado. Gleisi também destacou projetos dos quais participou durante sua passagem pelo Congresso, como a Lei do Feminicídio, o Estatuto das Guardas Municipais e a criação da Patrulha Maria da Penha. Na área da saúde, apontou o setor como uma de suas principais prioridades e defendeu a ampliação das chamadas carretas da saúde para reduzir filas de exames e procedimentos. Segundo ela, há um compromisso para levar pelo menos mais seis unidades ao Paraná.
Gleisi ainda comentou a criação do curso de Medicina da Unespar em Apucarana, a necessidade de ampliar a estrutura hospitalar na região e as políticas voltadas ao agronegócio e à agricultura familiar.
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TRIBUNA DO NORTE/TN: O que motivou a senhora a voltar a disputar o Senado neste momento?
GLEISI HOFFMANN: A minha decisão de disputar de novo o Senado está exatamente na importância que tem o Senado para o Estado do Paraná. Nós só temos três senadores por Estado, e os senadores precisam estar presentes na vida do povo paranaense e na vida do Estado. Eu já fui senadora. Fui senadora junto com o (Roberto) Requião, com o Alvaro Dias, e peguei o pedido do Osmar Dias. Nós tínhamos um protagonismo grande no Senado da República. Articulávamos as forças políticas, sociais e econômicas e tínhamos presença nas discussões. Hoje, infelizmente, a gente tem um Senado muito acanhado, que representa o Paraná. Tirando o Flávio Arns, que tem uma causa muito justa, que é a educação especial, os outros senadores não dizem a que vieram. Um agora quer ser candidato, é candidato. Há governadores que nunca emprestaram o serviço certo para o Paraná. E o outro a gente nunca viu. Então, nós precisamos ter no Senado pessoas que deem protagonismo ao nosso Estado. E também porque eu acho que as mulheres precisam ocupar espaço. Eu fui a primeira senadora do Paraná e não teve mais nenhuma mulher que ocupou o Senado. Eu acho que nós precisamos voltar ao Senado da República. O Congresso Nacional é um espaço importante, onde a gente discute temas que têm a ver com o nosso dia a dia: saúde, educação, assistência social e investimentos em infraestrutura. Quando tem uma mulher sentada à mesa, esses temas ganham uma importância grande e a mulher pode colocar a sua visão.
TRIBUNA DO NORTE/TN: A senhora já foi senadora. O que pretende fazer de diferente agora?
GLEISI HOFFMANN: Primeiro, pretendo que aquele protagonismo que nós tivemos naquela época possa ser resgatado. Eu fui uma senadora que tive muita atuação, não só na articulação de recursos para o Paraná, mas também em matérias importantes. Meu primeiro projeto de lei, quando assumi no Senado, foi acabar com o 14º e o 15º salários de deputados e senadores. Isso é um absurdo. Ninguém tem 14º e 15º, mas deputados e senadores tinham. Também fui relatora da Lei do Feminicídio, que colocou o homicídio qualificado como feminicídio. Fui relatora do Estatuto das Guardas Municipais, para que tivéssemos uma estrutura de legislação que desse condições para a Guarda Municipal atuar. Também propus a Patrulha Maria da Penha e a aposentadoria das donas de casa. São matérias que fazem muita diferença para a vida das mulheres. Eu quero continuar propondo temas como esse, continuar discutindo o enfrentamento à violência contra a mulher, as questões de modernização que ainda temos no serviço público, o desenvolvimento econômico e social e articulando recursos para o Paraná. A gente precisa trazer recursos para o nosso Estado. Quando fui senadora, em um período em que também fui ministra da Casa Civil da Dilma, nós recebemos muitos recursos. Apucarana é um exemplo disso. Fizemos muitos investimentos, principalmente em conjuntos habitacionais, creches e unidades básicas de saúde. Isso precisa continuar. Nós retomamos agora com o nosso governo, com o governo do presidente Lula, que tem atuado muito nisso, mas podemos fazer mais e trazer mais coisas para o Paraná.
TRIBUNA DO NORTE/TN: Qual é a sua principal prioridade para o Paraná?
GLEISI HOFFMANN: Sem dúvida nenhuma, a grande prioridade que eu acho que é de toda a população, mas principalmente de nós mulheres, é a saúde. E sem saúde, a gente não é nada. A gente precisa ter saúde, bons hospitais e uma rede de atendimento. Nesse período em que estou participando com o presidente Lula no governo, articulamos muito com o Ministério da Saúde e com a Itaipu investimentos em saúde. Nós trouxemos para cá as carretas da saúde. Elas fazem atendimento à saúde da mulher, são verdadeiros consultórios ginecológicos. Temos uma carreta dessas no Paraná, que já fez rodadas em vários municípios, atendendo e realizando exames de imagem, ultrassom e outros procedimentos, diminuindo a fila. Também temos a carreta das operações oftalmológicas, que faz cirurgias de catarata, que é bem importante, e a de exames por imagem. Nós queremos trazer mais carretas. Tenho um compromisso, inclusive já falei com o Ministério da Saúde, de termos pelo menos mais seis carretas no Paraná para ajudar no programa Agora Tem Especialistas e reduzir filas. Também temos colocado muitos equipamentos em hospitais. Por exemplo, no Honpar, em Arapongas, estamos colocando um aparelho de radioterapia novíssimo, com recursos do Ministério da Saúde, que vai ajudar no tratamento do câncer. [...) Essa parte da saúde é prioritária, que vou me dedicar muito. A outra é em defesa das mulheres, o enfretamento à violência, não podemos continuar com esses índices de feminicídio. As mulheres não podem ser mortas por serem mulheres. Temos que combater a violência doméstica.
TRIBUNA DO NORTE/TN: A senhora ocupou a Secretaria de Relações Institucionais. Como pretende atuar no Senado diante de um país polarizado e de um Congresso conservador?
GLEISI HOFFMANN: Eu fui ministra da Secretaria de Relações Institucionais fazendo essa relação exatamente com o Congresso. A gente tinha que negociar muito. Eu acho que sempre com conversa a gente avança. Para você ter uma ideia, um dos projetos que conseguimos aprovar, e com unanimidade, foi a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Muita gente dizia que isso não era possível, mas com mobilização social e conversa interna a gente consegue. Claro que tem o setor radical, aí não adianta querer conversar. Como dizia a minha avó, não adianta queimar vela para santo ruim, porque não adianta você querer conversar com uma pessoa que não quer conversar com você. Mas tem gente que quer conversar, mesmo que pense diferente de você. E eu acho que é nessa circunstância que a gente consegue avançar e fazer com que as coisas aconteçam. Então, no Senado, vou ter essa postura: defender o que penso, minhas ideias e aquilo que acredito que é melhor para o brasileiro e para as mulheres, mas também saber conversar para a gente poder avançar.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Vale do Ivaí se destaca pelo agronegócio e pela agricultura familiar. Como fazer essa combinação entre ajudar os grandes produtores e incentivar os pequenos?
GLEISI HOFFMANN: Não há contradição nisso. Nós vivemos bem no Brasil usando o grande foco na exportação, que é necessário para o nosso país. A exportação de soja, milho, gado e carne é importante porque traz divisas e ajuda a nossa balança. Ao mesmo tempo, temos o agricultor familiar, que é quem coloca a comida na mesa da população, quem planta o feijão, o arroz, a batata, a mandioca, a verdura e tudo o que a gente come no dia a dia. O grande produtor já tem mais estrutura e quase que se desenvolve sozinho. O que precisamos é de crédito seguro, algo que o governo já vem fazendo e estimulando há algum tempo, além de abrir mercados. Para o pequeno agricultor, também precisamos de crédito, programas de sustentabilidade, como o Programa de Aquisição de Alimentos, que compra alimentos do pequeno agricultor para colocar em entidades assistenciais e hospitais. Temos também o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que compra produtos do pequeno agricultor. É preciso fazer feiras, dar assistência técnica, ter uma política de preços e também estoque. Se não tivermos uma política de estoque, quando há uma supersafra de arroz, por exemplo, o preço cai muito e o produtor sofre. O governo tem que entrar comprando, guardar e, quando não houver safra, colocar para vender. Temos medidas para ambos, e o governo do presidente Lula tem feito isso muito bem, sempre cuidou da agricultura brasileira e da agricultura paranaense.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Paraná vai receber o curso de medicina da Unespar, em Apucarana. Como essa conquista pode ajudar a saúde de toda a região?
GLEISI HOFFMANN: É fundamental termos cursos de medicina interiorizados. Teve uma época em que o Brasil só tinha cursos de medicina nas capitais ou nos grandes polos, e isso dificultava muito o médico ficar no interior, em cidades onde não havia curso. A maioria se formava nos grandes centros e nós tínhamos um problema com os médicos. O governo criou, na época da presidenta Dilma, o programa Mais Médicos. Um dos braços do programa não era só trazer médicos para colocar nos lugares, mas também fazer com que os cursos de Medicina fossem interiorizados. Precisávamos ter Medicina em vários municípios do país, com foco na medicina básica e estímulo para que o médico formado permanecesse onde estudou. Essa ampliação de cursos, como está ocorrendo na Unespar e em outras universidades, inclusive privadas, faz parte desse programa de expansão. O MEC tem autorizado esses cursos dentro dessa concepção: precisamos ter mais cursos de Medicina, mais interiorizados, para fazer com que o profissional que se forma fique onde se formou e possa atender aquela comunidade. Eu fico feliz de ver que hoje uma das coisas que a gente quase não tem reclamação é falta de médicos na assistência básica. Tivemos um período em que havia muita reclamação disso. Agora são casos mais pontuais de médicos especializados, mas, no geral, temos um atendimento médico mais espalhado pelo interior.
TRIBUNA DO NORTE/TN: Apucarana, por exemplo, enfrenta uma carência de estrutura hospitalar. Existe algum projeto para trazer mais hospitais para a cidade e para a região?
GLEISI HOFFMANN: O Hospital Honpar é um grande complexo que acaba atendendo toda a região. O Hospital da Providência eu já estive visitando, já conversei com as irmãs e sempre procuramos ajudar também por meio de emendas e recursos. Obviamente, hospital sempre é uma carência. Você sempre vai precisar de mais hospitais. Então, precisa, sobretudo, além de abrir o hospital, ter sustentabilidade e recursos para mantê-lo. Nós já tivemos situações em que se abre o hospital e não há recursos para manter. O hospital acaba fechando ou atendendo mal as pessoas. Isso não pode acontecer. Acho que precisamos fazer essa discussão com Apucarana e com outros municípios para avaliar essa necessidade. Estou à disposição para esse tipo de conversa e também para ajudar no que for preciso para levar assistência hospitalar para a região.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Senado tem recebido críticas sobre o distanciamento com a população. A senhora concorda? O que poderia ser feito?
GLEISI HOFFMANN: No caso do Paraná, é uma realidade por conta da ausência dos senadores. Como eu disse, o mais presente é o Flávio Arns, que tem uma bela pauta, que é a causa da educação especial, mas os outros senadores realmente ficam muito distantes do povo paranaense. As pessoas se ressentem. Os prefeitos se ressentem, as lideranças se ressentem, porque o Senado deixa de ser um espaço de articulação. Eu concordo com isso e tem como o Senado ser mais presente. Isso não quer dizer que o senador tenha que estar o tempo inteiro visitando os municípios, mas ele tem que estar presente nas conversas, nas reuniões, fazer giros pelo Estado, conversar com as lideranças e ver o que é interessante e importante para o Paraná. A presença é nesse sentido, de cuidar dos interesses do Estado e da população.
TRIBUNA DO NORTE/TN: Como mulher, a senhora acredita que é possível ampliar a participação feminina na política?
GLEISI HOFFMANN: Com certeza. Essa é uma luta que faço há muito tempo, desde que iniciei minha militância política, desde que fui pela primeira vez senadora, fui ministra e depois deputada, além da minha militância no movimento estudantil. É fundamental. Na política a gente decide o rumo das coisas, o rumo do país, do Estado e das políticas públicas. Se a metade da população, que somos nós mulheres, não estiver sentada à mesa para tomar essas decisões, com certeza a coisa sai pela metade, porque a visão não vai ser geral, vai ser de uma parte da população, que é a parte masculina. Não é uma guerra contra os homens, mas é para termos equilíbrio. A gente precisa desse equilíbrio, senão não vamos conseguir fazer as coisas da melhor maneira. Eu luto muito para que as mulheres estejam na política. A minha candidatura ao Senado tem esse propósito de também colocar isso em debate, em pauta, e estimular outras mulheres a participarem, seja como candidatas a deputadas, vereadoras, prefeitas, governadoras ou até presidente da República. Nós precisamos estimular. É muito importante para que possamos melhorar. Quando a mulher entra na política, melhora para todo mundo. Melhora para a família, melhora para os homens. É só ver que a pauta que as mulheres levam é a pauta do cuidado, da saúde, da educação e de ter um olhar mais afetuoso com as pessoas. Isso faz toda a diferença.
TRIBUNA DO NORTE/TN: O Paraná é um Estado conservador. Como pedir voto para pessoas que têm resistência ao PT?
GLEISI HOFFMANN: Primeiro, eu já fui senadora nesse Estado conservador e sempre fui do PT. Eu acho que o problema não é a questão de ser conservadora. É eu ter minhas ideias, meus valores, e eu respeito os de todo mundo. O que eu não concordo é dizer que o Paraná é um Estado de direita. Isso eu não concordo, porque eu já fui senadora, o Requião já foi senador e foi três vezes governador. O PT já governou Maringá, Londrina, Apucarana, Ponta Grossa... Nós temos um eleitorado que olha para nós e para os nossos programas e propósitos. Passamos por uma conjuntura difícil, com tudo o que aconteceu, o impeachment da Dilma, a Lava Jato, a chegada do Bolsonaro à Presidência e o crescimento da extrema direita. Mas eu acho que temos espaço para discutir, e eu estou fazendo isso. Eu quero que as mulheres voltem ao Senado da República. Quero representar as mulheres paranaenses, quero representar o povo paranaense, mas especialmente as mulheres. Nós precisamos desse espaço para colocar as pautas que nos são caras e importantes, desde a saúde, como falei aqui, até a educação, assistência social, cuidado, enfrentamento à violência e segurança. São pautas que interessam muito às mulheres. Por isso quero voltar ao Senado da República e, quando tenho oportunidade, peço o voto e o apoio para que a gente chegue lá.
