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O simples que funciona

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O simples que funciona
Autor Foto: Ilustrativa/Freepik

Em economia, há várias formas de combater a inflação: juros, crédito, gasto público, expectativas, oferta, logística ou corte de desperdícios. Mas nenhuma medida funciona bem sem diagnóstico correto. Quem erra a causa, erra o remédio. No setor público ocorre o mesmo: soluções mal pensadas custam caro, atrasam processos, irritam o cidadão e transformam boas intenções em improdutividade.

Essa lógica também vale para a rotina administrativa. Há muitas formas de fazer a mesma coisa, mas algumas resolvem e outras apenas parecem sofisticadas. Por excesso de zelo, muitos confundem controle com labirinto, planejamento com reunião sem fim e inovação com fórmulas importadas. O resultado é retrabalho, demora, sistemas mal utilizados e a incrível capacidade de transformar providências simples em epopeias burocráticas.

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Nessas horas, lembro-me dos ensinamentos do professor Jandir Ferrera de Lima, que sempre repetia uma lição aparentemente modesta, mas profundamente revolucionária: temos que fazer tudo da forma simples, porque o simples funciona. Parece pouco, mas não é. Num ambiente em que muitos se escondem atrás da complexidade para não entregar resultado, defender o simples chega a ser quase um ato de coragem administrativa.

Essa reflexão me remete à chamada “Navalha de Ockham”, princípio associado ao filósofo inglês Guilherme de Ockham. Em essência, a ideia recomenda que não se multipliquem explicações, hipóteses ou caminhos além do necessário. Em linguagem direta: diante de diferentes alternativas capazes de explicar ou resolver adequadamente o mesmo problema, deve-se preferir a mais simples, desde que ela seja suficiente, coerente e eficaz.

Mas é aqui que mora o perigo. Fazer o simples não significa fazer de qualquer jeito. Não é minimalismo estético, não é preguiça intelectual, não é a velha “lei do esforço mínimo” travestida de filosofia. Simplicidade não é sinônimo de pobreza de análise. Ao contrário: muitas vezes, chegar ao simples exige mais inteligência, mais método, mais humildade e mais compromisso do que construir uma solução complicada. Complicar é fácil. Difícil é compreender o problema, eliminar o acessório, identificar o essencial e agir com precisão.

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No setor público, essa distinção é vital. Servidores e prestadores de serviços precisam compreender que eficiência não é correr sem direção. Que efetividade não é cumprir ritual. E que eficácia não é produzir volume de papel. Eficiência é usar melhor os recursos. Efetividade é gerar resultado concreto para a sociedade. E eficácia é alcançar o objetivo proposto. Quando essas três dimensões se perdem, a administração começa a se ocupar de si mesma, como se o cidadão fosse um inconveniente externo ao processo.

A mudança necessária, portanto, é atitudinal e prática. É preciso abandonar o culto ao “sempre foi assim”, essa frase que deveria ser aposentada por inutilidade pública. É preciso parar de tratar sistemas como inimigos, prazos como sugestões, processos como gavetas digitais e responsabilidades como bolas de pingue-pongue. Também é necessário valorizar quem resolve, quem simplifica, quem antecipa problemas, quem atende bem, quem registra corretamente, quem melhora fluxos e quem entende que o serviço público existe para servir ao público, não para proteger zonas de conforto.

O caminho adequado é diagnosticar melhor, simplificar fluxos, medir resultados, capacitar pessoas e cobrar responsabilidades. Menos teatro burocrático, mais entrega. A ineficiência sempre aparece, e o simples, quando bem feito, continua sendo o caminho mais curto entre o dever e o resultado.

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