Brasil segue na UTI fiscal
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Os dados mais recentes do Boletim Focus, divulgado em 28 de março, escancaram um cenário econômico cada vez mais preocupante para o Brasil. As expectativas inflacionárias não dão trégua: para 2025, o IPCA projetado segue firme em 5,65%, superando com folga o teto da meta, que é de 4,50%. E o que é ainda mais alarmante é que para os anos seguintes, a previsão é de que a inflação permaneça persistentemente acima de 4%, consolidando um ambiente de perda de poder de compra e corroendo o orçamento das famílias, especialmente das mais pobres.
Essa pressão inflacionária é acompanhada de uma deterioração das expectativas de crescimento. A projeção do PIB para este ano já recuou para tímidos 1,97%, reflexo direto da desorganização das contas públicas e da incapacidade do governo federal em apresentar um plano crível de estabilidade fiscal. O desequilíbrio orçamentário gera desconfiança, afugenta investimentos e mina qualquer possibilidade de retomada sólida. A consequência mais cruel é a estagnação do mercado de trabalho que se apresenta com baixo dinamismo econômico. O país não absorve sua juventude em idade ativa, resultando em desemprego real disfarçado e em um empobrecimento estrutural da população.
A situação piora quando olhamos para os juros. A expectativa para a taxa Selic estacionou em 15% ao ano, se caracterizando como uma das mais altas do mundo em termos reais. Esse patamar sufoca a atividade produtiva, encarece o crédito e aumenta de forma explosiva o custo de rolagem da dívida pública. A expectativa sobre a dívida líquida do setor público já representa 65,75% do PIB, e, com juros tão altos, a tendência é que esse percentual continue subindo, agravando ainda mais o quadro de insolvência fiscal. O resultado nominal previsto para 2025, com déficit de 9% do PIB, é simplesmente insustentável.
Diante desse panorama, o que vemos por parte do governo? Inanição. A política econômica da gestão Lula parece padecer de total paralisia técnica e de visão estratégica. O discurso oficial insiste em promessas de crescimento inclusivo e desenvolvimento sustentável, mas o que temos é a perpetuação de uma política de gastos sem rumo, guiada não por metas de eficiência e bem-estar, mas por interesses paroquiais do Congresso Nacional. O orçamento público está tomado pelas emendas parlamentares enquanto projetos estruturantes e investimentos em áreas prioritárias seguem negligenciados.
Essa captura do orçamento e a ausência de diretrizes claras tornam impossível qualquer trajetória de estabilidade e prosperidade. É como se o governo estivesse preso a uma ilusão de desenvolvimento que não se sustenta em bases econômicas sólidas. Enquanto isso, a sociedade brasileira, que ainda tenta se recuperar das crises recentes, é lançada novamente em um ciclo vicioso de inflação, baixo crescimento e deterioração social. Mais uma vez estamos diante de uma “tempestade perfeita”.
Se o governo não tomar consciência da gravidade da situação e não promover uma guinada completa na condução econômica, com foco na responsabilidade fiscal, na eficiência do gasto público e na retomada do crescimento sustentável, estaremos condenados a mais uma década estagnada.
Como bem dizia a poetisa mineira Adélia Prado, “o que a memória ama, fica eterno”. Infelizmente, o que o Brasil parece estar eternizando é a memória de uma política econômica desgovernada, em que a realidade fiscal sangra e os sonhos de mobilidade social evaporam. Se não mudarmos já, vamos amar por muito tempo apenas a lembrança de um país que poderíamos ter sido.