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A política da culpa

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A política da culpa
Autor Foto: Ilustrativa/Freepik

Os problemas no setor público sempre vão existir. Alguns são de responsabilidade do governo federal, outros dos estados e muitos estão diretamente nas mãos dos municípios. Governar, portanto, não é administrar uma realidade perfeita, livre de imprevistos, limitações financeiras, deficiências estruturais ou demandas urgentes. Governar é lidar com a vida como ela se apresenta: complexa, mutável e, muitas vezes, bem diferente das soluções simples prometidas pelos discursos fáceis.

Há problemas novos, provocados pela ação humana, por mudanças econômicas, pelo crescimento desordenado das cidades ou por fenômenos naturais. Eles surgem repentinamente e exigem diagnóstico, levantamento de informações, definição de prioridades, elaboração de projetos, disponibilidade orçamentária e execução. A administração pública não dispõe de uma gaveta mágica da qual se retire uma solução pronta para cada emergência.

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Por outro lado, existem os problemas antigos, como ruas sem drenagem, prédios deteriorados e bairros sem nenhuma infraestrutura. São gargalos que atravessam sucessivas gestões. Embora o governo atual não seja o culpado por eles terem surgido, cabe a ele enfrentá-los com planejamento e ação. No entanto, parte do debate político prefere ignorar as limitações e o tempo que as soluções reais exigem. Escolhem acusar em vez de compreender, gerar indignação em vez de solucionar, e fabricar culpados para alimentar o imediatismo das redes sociais.

Tomemos um exemplo do dia a dia. Após chuvas intensas, a enxurrada danifica o pavimento asfáltico de determinada região. Imediatamente surgem fotografias, vídeos e discursos atribuindo toda a responsabilidade ao governante de plantão. Contudo, uma análise séria poderia revelar que aquele asfalto foi executado anos antes, com material inadequado, espessura insuficiente ou preparação deficiente da base. Poderia demonstrar que o bairro foi aprovado sem galerias pluviais capazes de suportar o escoamento das águas.

Nesse caso, a pergunta honesta não é por que o asfalto quebrou. Devemos perguntar: quem elaborou o projeto incompleto? Quem executou a obra sem qualidade? Quem fiscalizou e quem aprovou o empreendimento errado? Cobrar o conserto da gestão atual é legítimo e necessário. Mas, acusá-la de ter criado uma deficiência herdada é falsificação política da realidade. Não é justo.

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A desonestidade intelectual começa justamente quando alguém conhece essa diferença, mas prefere ocultá-la porque a versão simplificada rende aplausos, votos ou visualizações. É uma espécie de alteração do raciocínio: selecionam-se fatos convenientes, eliminam-se os antecedentes incômodos e constrói-se uma narrativa na qual o adversário é culpado até mesmo por acontecimentos anteriores à sua chegada.

Problemas herdados explicam dificuldades, mas não justificam a omissão. Quem governa deve compreender, planejar, informar e agir, enquanto quem fiscaliza precisa cobrar com responsabilidade, sem distorcer os fatos. Como ensinaram Sêneca e Epicteto, a razão deve prevalecer sobre paixões e ressentimentos, embora muitos escolham suas conclusões antes de conhecer os fatos. Diante deles, explicar indefinidamente pode ser inútil, mas calar significa entregar o espaço público aos manipuladores. Por isso, é necessário apresentar evidências, registrar responsabilidades e desmontar narrativas fraudulentas, pois, como advertiu Epicteto, “é impossível para alguém começar a aprender aquilo que pensa já saber”. Se aos intelectualmente desonestos falta disposição para aprender, à sociedade não pode faltar coragem para enfrentá-los.

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