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Tudo é aposta e a esperança como derrota

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Tudo é aposta e a esperança como derrota
Autor Foto: Pixabay

Tudo começou com a aposta na fumaça azul ou rosa. Para a felicidade do pai e aceitação da mãe – ao menos assim se via no vídeo postado -, era um menino, um campeão entre as possibilidades, de todos os pequenos espermatozoides e a infertilidade do pai, ele nasceria. Cresceu ouvindo sobre todas as apostas que vieram de sua concepção, sexo e paternidade. Logo ele que foi um dia a aposta, se tornou um grande apostador, compulsivo e esperançoso.

Ele apostava em tudo. No ponto do ônibus, no tempo do café coado, na cor do carro que viria depois do caminhão. Apostava se o casal da fila da padaria era recém-casado ou recém-separado. Se choveria ou não. Se o dia ia ser bom. Perdia mais do que ganhava, mas insistia: “quem não aposta, não vive”, dizia. Diziam que ele começou com uma simples aposta de quem chegava primeiro no poste, ele ou um carro vermelho, e adivinhe, ele ganhou.

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Na adolescência, apostou que aquela paixão fulminante ia durar para sempre. Não durou. Apostou numa banda cover de Legião. Durou menos ainda. Já adulto, apostou num curso que não terminou, num emprego que não existia mais, numa sociedade com um primo que fugiu com o caixa. Continuava sorrindo: “faz parte do jogo”. Às vezes, as apostas eram com o próprio cérebro, outras com amigos, familiares e por fim, desconhecidos.

Um dia as apostas começaram a ter nome, senha e cashback. Um clique aqui, outro ali, e ele estava mergulhado num mar de odds, escanteios asiáticos e palpites em campeonatos que nem sabia que existiam. Uganda Sub-20. Japão Feminino. Série D do Piauí. Cada aposta, uma promessa. Cada boleto, um lembrete do buraco. Raramente ganhava, mas os prêmios eram comuns demais para valorizar, como uma linda esposa, uma casa e filhos, que ele acertou no chá revelação.

Via vídeos de gente famosa dizendo que era só saber jogar. “Segue o link e vem lucrar comigo.” Influenciadores que acordavam milionários e dormiam em Dubai, todos com aquele tom animado, como quem anuncia uma receita de brownie: rápido, fácil e garantido. E ele, ali, apostando até no que não tinha mais. A influenciadora não era a virgem imaculada, mas passava confiança com sua bela família e um rostinho angelical. Com um ou dois stories a mais, ela venderia qualquer coisa, até a própria alma. E ele compraria.

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Aos poucos ele foi perdendo: o aluguel, a conta da luz, a paciência dos amigos. A mulher foi embora dizendo que não dava mais pra dividir a vida com um bilhete de aposta. Ficou só. Mas nem isso o impediu de seguir. Apostou que conseguiria voltar.

E foi quando já não restava mais nada, que descobriu que haviam usado seu nome, seus dados, sua identidade — para um empréstimo que ele nunca pediu. Entrou na fila do INSS e descobriu que era mais um entre milhares. Um CPF entre tantos na estatística da fraude. Uma vítima invisível da máquina.

Riu. Não de alívio, mas daquele riso sem saída. Apostou até nisso: vai que essa CPI dá em algo. Vai que devolvem. Vai que alguém olha pra ele.

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No fim, seguiu como sempre: apostando. Porque perder, para ele, já era rotina. O vício mesmo era na esperança, essa mesma que mata e morre todos os dias em milhões de casas. Quem sabe a sorte não o encontre amanhã e o retire dessa vida miserável que alguém o colocou antes mesmo de nascer... quer apostar?


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