Quantos dias cabem em um texto?

O despertador tocou.
Não importa exatamente a hora. Poderia ser seis e vinte, seis e meia, sete menos dez. Há horários que, depois de algum tempo, deixam de ser números e passam a ser apenas o anúncio de que tudo vai começar outra vez.
Levantar.
Abrir a janela.
Fazer café.
Olhar o celular.
Responder o que ficou de ontem.
Lembrar o que precisa ser feito hoje.
Pensar, por alguns segundos, no que ficará para amanhã.
E então o dia começa.
Ou continua.
Às vezes penso que existe uma estranha sensação de repetição na vida adulta. Não porque os dias sejam realmente iguais, mas porque aprendemos a percorrê-los quase sempre do mesmo jeito. As mesmas pressas. Os mesmos trajetos. As mesmas frases. As mesmas promessas feitas a nós mesmos no fim da noite e esquecidas na manhã seguinte.
O despertador toca.
Levantar.
Café.
Celular.
Trabalho.
E alguém diz que o tempo está passando rápido demais.
É uma frase curiosa.
Porque, até onde sabemos, o tempo não recebeu nenhuma ordem para acelerar. Uma hora ainda tem sessenta minutos. Um dia continua tendo vinte e quatro horas. O relógio não ficou mais apressado.
Então o que mudou?
Houve um tempo em que uma tarde parecia enorme.
Uma tarde inteira podia caber entre o almoço e alguém chamando porque já estava escurecendo. E dentro dela havia mundos. Uma brincadeira durava uma vida. O caminho até a casa de um amigo era uma viagem. Esperar pelo sábado exigia uma paciência quase impossível.
O tempo era maior?
Ou éramos nós que ainda sabíamos morar dentro dele?
Talvez seja por isso que algumas lembranças da infância pareçam ocupar espaços gigantescos na memória, enquanto semanas inteiras da vida adulta desaparecem sem deixar endereço.
Os dias não ficaram menores.
Talvez nós tenhamos aprendido a passar por eles depressa demais.
Um dia, porém, alguma coisa acontece.
Nada espetacular.
Nenhuma grande notícia.
Talvez alguém decida limpar a casa com outra pessoa.
Arrasta-se uma cadeira. Abre-se uma janela. Tira-se o pó de uma estante. E, enquanto a casa vai sendo colocada em ordem, começa uma conversa que não estava marcada em agenda alguma.
Alguém fala sobre o universo.
E parece absurdo, mas por alguns minutos toda a infinitude dele cabe entre um canto e outro da sala.
Fala-se sobre medo. Sobre sonhos. Sobre coisas que poderiam ter sido. Sobre aquilo que ainda pode ser. Sobre o mistério de estar vivendo um dia absolutamente comum que, apesar disso, nunca mais acontecerá.
Porque aquele chão poderá ser limpo outra vez.
Aquela cadeira poderá voltar ao mesmo lugar.
As mesmas pessoas talvez estejam novamente naquela sala.
Mas aquele instante acabou.
E então surge uma pergunta.
Quantos textos podem ser escritos em um dia?
Talvez muitos.
Mas quantos dias cabem em um texto?
Depende.
Há dias inteiros que depois ocupam uma frase.
“Trabalhei e voltei para casa.”
