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O tempo que Escorre pelos dedos

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O tempo que Escorre pelos dedos
Autor Foto: Pixabay

5h47.Dona Lúcia acordou antes do despertador. A casa ainda estava escura, e o silêncio da madrugada parecia grudar nas paredes. Espreguiçou-se devagar, como se cada movimento lembrasse que o tempo tinha peso.

5h49. O silêncio da casa foi quebrado com o latido de Pantera ao ver sua única companhia desperta. Levantou-se sem pressa. Não havia por que ter. A vida já não corria como antes, e ela também não precisava mais correr. Foi até a cozinha e colocou a água para ferver. Enquanto esperava, passou os dedos pelo calendário pendurado na parede. Março. Mais um mês indo embora, ainda que fosse só dia 14. É engraçado como uma noite demora a passar, mas o mês voa, assim como os anos.

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6h01. Sentou-se à mesa e encarou a xícara fumegante. Ao seu lado, o celular vibrava com notificações. Vídeos, mensagens, notícias. Gente falando, gente vivendo, gente correndo. Para ela, nenhuma pergunta, só Bom Dia com um gif animado de uma amiga da igreja. Em algum momento, ela se tornou apenas uma espectadora.

6h04. Foi quando lembrou. Seu neto ligara na semana passada. A voz apressada, sempre ocupada.

— Vó, essa semana tá corrida. Mas prometo que no domingo eu passo aí.

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O domingo veio e foi. Sem visita, sem ligação. Mas o tempo não espera.

Dona Lúcia sabia disso melhor do que ninguém. Fora assim a vida inteira: sempre um adiamento, sempre uma desculpa. O marido, os filhos, os amigos. Sempre o “depois a gente se vê”, o “semana que vem eu passo aí”, o “quando der, a gente marca”.

O tempo foi levando todos. E ela ficou. No mesmo lugar, há quase 40 anos, saia pouco, toda manhã na mesma cadeira, no mesmo canto da mesa, que ficava maior cada vez que um lugar vagava.

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6h14. Suspirou fundo e decidiu levantar. Ajeitou a casa, limpou as janelas, molhou as plantas. Viveria o dia, como fazia sempre. Mas, lá no fundo, algo doía. A certeza de que, para alguns, a vida só desacelera quando já é tarde demais.

7h42. Abriu apenas metade da cortina, não gostava de ver o novo prédio que foi construído no terreno que um dia foi a casa de Leonir. Saudosa Leonir.

8h23. Pegou o celular mais uma vez, digitou uma mensagem curta para o neto. "Quando der, venha me ver. Antes que o tempo passe para nós dois."

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8h31. Apertou "enviar".

Depois, voltou para outra xícara de café, observando a fumaça desaparecer aos poucos. Talvez ele entendesse. Talvez não. Mas, de qualquer forma, ela já sabia a resposta que o tempo sempre dá para quem espera demais.

11h12. Nenhuma notificação.

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14h10. Nenhuma ligação.

17h. Silêncio.

21h. O vazio.

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23h20. 01h15. 5h34. 8h20. 10h45. 14h50. 17h22. 22h. 23h. 05h47...

9h35. Dia 16. O neto viu a mensagem. Tocou o celular, culpado por não ter respondido antes.

9h40. Resolveu ligar. Sem resposta. Tentou de novo. Nada.

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9h42. Pegou o carro e foi até a casa dela. Era domingo.

9h53. Bateu na porta. Chamou pelo nome.

O silêncio respondeu.

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9h55. Com a chave que sempre teve, abriu devagar. O cheiro de café ainda estava no ar, misturado ao perfume suave das plantas no quintal. Tudo no lugar.

9h55m23s. Dona Lúcia estava sentada à mesa, os olhos fechados, como se apenas descansasse. As mãos cruzadas sobre o colo, o celular desligado ao lado. A água na chaleira havia secado.

9h55m24s. Pantera latiu de tristeza ou de fome e ainda nem era 11h.

9h55m25s. Não teve almoço naquele dia, nunca mais teve almoço ali.

9h55m26s. Era domingo, só que era o errado.


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