TNOnline

Leia a última edição Siga no Whatsapp
--°C | Apucarana
Euro
--
Dólar
--

Blog do Guilherme Bomba

publicidade
BLOG DO GUILHERME BOMBA

O homem que torcia pela guerra quando ela ainda era dos outros

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Telegram
Siga-nos Seguir no Google News
Grupos do WhatsApp

Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline

O homem que torcia pela guerra quando ela ainda era dos outros
Autor Foto: Ilustrativa/Pixabay

Sérgio Batista assistia ao jornal como quem acompanha um campeonato.

Sentado no sofá, controle remoto na mão, comentava cada notícia da guerra distante com a segurança de quem nunca ouviu uma bomba cair perto de casa.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Associe sua marca ao jornalismo sério e de credibilidade, anuncie no TNOnline.

“Eu já disse, tem que acabar com eles de uma vez.”

A frase saía fácil. Natural. Como quem discute futebol numa segunda-feira.

Quando aparecia o número de mortos na tela, Sérgio franzia a testa apenas o suficiente para parecer sério. Depois vinha o comentário inevitável:

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“É guerra. Fazer o quê?”

Às vezes até fazia piada. Memes circulavam no celular, e ele encaminhava para os amigos com a mesma leveza com que se envia uma figurinha de bom dia. No fundo, aquilo tudo era simples para ele. Havia dois lados: o bom e o mau. E a guerra era apenas o caminho inevitável entre os dois.

Era longe. Era em outro país. Era televisão.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Meses depois começaram as notícias diferentes. Primeiro, o racionamento. O governo dizia que era temporário. Ajustes logísticos. Medidas preventivas.

Sérgio comentou no jantar:

“Normal. Isso acontece em guerra.”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Disse com uma estranha autoridade, como se tivesse estudado o assunto. Como se não tivesse aprendido tudo em trinta segundos de telejornal.

Depois vieram os apagões. As ruas da cidade começaram a mergulhar em noites inesperadas. O comércio fechava mais cedo. Sirenes de teste ecoavam de vez em quando.

Sérgio ainda dizia:

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Relaxem. Isso é estratégia.”

Mas agora sua voz já não tinha o mesmo tom de comentarista.

A primeira bomba caiu numa madrugada.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Não houve aviso. Não houve estratégia. Só o som. Um estrondo que pareceu rasgar o céu.

Na manhã seguinte, Sérgio caminhava entre vidros quebrados e paredes abertas como feridas. O bairro inteiro parecia uma fotografia de guerra que ele já tinha visto antes.

Na televisão, só que agora a televisão era a rua.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Dias depois, outra bomba caiu. Dessa vez perto da escola.

Sérgio apareceu em um telejornal improvisado, diante de um repórter com o microfone tremendo na mão. O rosto dele estava coberto de poeira.

A voz também tremia.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Meu filho estava na escola... eu só quero encontrar meu filho... alguém me ajuda a encontrar meu filho...”

Atrás dele, a praça onde o menino brincava tinha virado um monte de concreto.

Naquela mesma noite, em outro país, um homem assistia ao jornal sentado no sofá.

O repórter mostrava imagens da cidade destruída.

Escombros. Sirene. Gente correndo.

O homem balançou a cabeça. Pegou o celular.

E comentou no grupo dos amigos:

“É guerra. Fazer o quê?”

Depois mandou um meme. E mudou de canal.

A guerra só parece simples quando os mortos ainda não têm o nome do seu filho.

Gostou da matéria? Compartilhe!

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Email

Últimas em Blog do Guilherme Bomba

publicidade

Mais lidas no TNOnline

publicidade

Últimas do TNOnline

TNOnline TV