Cartas para quando setembro chegar
Epístola III de IV

Apucarana, 17 de novembro de 1998.
Querido Miguel,
Sua receita chegou.
O bolo ficou bom. Helena comeu duas fatias ainda mornas e disse que era o melhor que eu já tinha feito. Crianças talvez sejam generosas demais com as mães, mas resolvi acreditar nela.
Tenho tentado fazer isso ultimamente: acreditar. Nem sempre consigo.
Demorei para escrever esta carta. Escrevi pedaços dela em folhas diferentes. Rasguei alguns. Risquei outros até furar o papel. Em uma versão falei demais. Em outra, não disse nada. Talvez esta seja apenas a versão que cansou primeiro de ser reescrita.
Você disse que passa a vida tentando provar que merece ser amado. Pensei muito nisso. Talvez sejamos mesmo dois tolos muito bem treinados, como escreveu. Só que ultimamente tenho invejado sua necessidade de ser útil.
Eu tenho saudade de querer. Não de querer grandes coisas. Tenho saudade de acordar querendo café. De esperar pelo domingo. De ouvir uma música e querer ouvi-la novamente. De comprar alguma coisa para o mês seguinte sem sentir que o mês seguinte está longe demais.
Outro dia levei Helena para tomar sorvete. A praça estava cheia. Crianças corriam, gente conversava, alguém ria alto numa mesa ao lado. Helena escolheu chocolate. Eu escolhi o de sempre. E fiquei olhando para todas aquelas pessoas vivendo. O sorvete encostava nos meus lábios e eu sabia que estava gelado, mas parecia que meu corpo tinha se esquecido de me contar alguma coisa.
É estranho, Miguel. A gente imagina que deixar de sentir seja uma coisa barulhenta. Não é. Pode acontecer no centro da cidade, no meio de uma multidão, segurando a mão da própria filha. Talvez algumas pessoas desapareçam muito antes de alguém perceber que estão faltando. Não se assuste. Ainda estou aqui.
Trabalho. Faço jantar. Pago contas. Rio quando alguma coisa é engraçada. Helena continua me abraçando daquele jeito que lhe contei, como se meus braços fossem o lugar mais seguro do mundo.
Por ela, levanto. Por ela, lembro que amanhã precisa existir, mesmo quando não consigo sentir nenhuma curiosidade por ele.
Mas estou cansada, Miguel. E não é o tipo de cansaço que dormir resolve.
Tenho recusado convites. Inventado compromissos. Às vezes alguém pergunta se quero conversar e digo que não. Depois fico esperando que pergunte novamente.
É injusto, eu sei. Peço distância e sofro quando ela vem. Talvez eu tenha passado tanto tempo com medo de perder as pessoas que comecei a me despedir delas antes que fossem embora.
Agradeço demais. Peço desculpas demais. Guardo demais.
Há dias em que olho para quem amo e sinto saudade antes mesmo de perder.
Você escreveu que não sabe como me tirar deste lugar, mas poderia sentar um pouco aqui.
Miguel... Acho que talvez esteja na hora de eu admitir que gostaria que alguém sentasse. Não precisa resolver nada. Talvez apenas me escreva logo. Ou me diga, de algum jeito, que ainda há coisas que valem a pena esperar. Tenho precisado que alguém me lembre disso.
E quero que um dia conheça Helena. Ela ainda é pequena, mas já sabe seu nome por causa do bolo. Prometi a mim mesma que mandaria uma fotografia dela. Só preciso encontrar um dia em que estejamos as duas bonitas ao mesmo tempo.
Talvez domingo.
Veja só.
Ainda faço planos para domingo.
Com carinho,
Clarice.
P.S.: Esta carta quase não sobreviveu às outras versões dela. Se algum dia vier me visitar, esconda os papéis da casa. Tenho a péssima mania de deixar meus fracassos de escrita espalhados por aí.
Epístola ficcional sobre dores emocionais invisíveis. Se este texto tocar uma ferida sua, procure ajuda. CVV: 188.
