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Alguém...
Autor Foto: Pixabay

Acordei com a nitidez amarga de não fazer falta. Há dias assim — ou talvez sejam todos. Em que a alma acorda antes do corpo, e o corpo, quando vem, já chega cansado.

Sentei-me à beira da cama e esperei algo. Não sei o quê. Talvez um barulho qualquer que dissesse que o mundo me esperava. Nada. A casa era surda.

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Levantei.

Fiz café — sem vontade, sem gosto. Era um gesto apenas. Bebi-me nele.

No espelho, um homem. Parecia comigo. Mas estava mais pálido. Um pouco mais ausente. Era um tio, quem antes foi um jovem, uma criança, um nada, voltava a sê-lo.

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Pensei: se eu morresse hoje, quanto tempo levaria para alguém dar por falta do meu silêncio?

Sair foi um capricho de sobrevivência. Às vezes, ir até a calçada é tudo que me impede de cair dentro de mim.

No corredor, a vizinha do 203 abriu a porta. Disse:

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— Seu Miguel, aquele pão com orégano... ficou igualzinho ao seu. As crianças pedem “o pão do Seu Miguel”.

Sorri. Por fora. Por dentro, só observei: até o pão que fiz um dia continua mais presente que eu.

Na rua, o jornaleiro me gritou:

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— A piada do elefante e do carteiro... minha mulher chora de rir! Disse que só o senhor pra lembrar essas coisas.

Sorri de novo. Meus risos moram nos outros?

Um rapaz parou no ponto. Parecia aflito, mas firme.

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— O senhor me disse uma vez: “ninguém começa grande, mas começa”.

— Disse? — perguntei, ou pensei que perguntei.

— Aquilo me salvou. Hoje, estou indo pra faculdade. Obrigado, viu?

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Assenti. Senti. Não sei.

Voltei andando devagar. Sentei num banco qualquer. O sol me atravessava sem perceber.

Pensei: há pessoas que passam por mim e me notam mais do que aqueles que dizem me amar.

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Há gestos que fiz sem querer que se tornaram monumentos invisíveis na memória de alguém.

Não chorei. Já não tenho esse hábito. Chorar é para quem ainda espera consolo.

Mas entendi, naquele banco, que talvez não seja a vida que nos esquece.

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Somos nós que nos deslembramos de existir.

E no entanto...

Alguém come um pão e pensa em mim.

Alguém ri de uma piada que não me pertence mais.

Alguém acredita porque um dia, sem querer, eu disse algo.

E isso... isso não salva. Mas sustenta.

Como quem caminha na beira do abismo, sabendo que há pedras no caminho que ele mesmo colocou — sem saber — para outros passarem.



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