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A morte sem luto: deslize para a próxima tragédia

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A morte sem luto: deslize para a próxima tragédia
Autor Foto: Ilustrativa/Gerada por IA

Na última semana, milhares de pessoas assistiram ao mesmo vídeo.

Uma jovem se preparava para saltar de uma ponte. Havia expectativa, adrenalina, risos nervosos e a promessa de uma experiência inesquecível. Então algo deu errado. Muito errado.

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Ela foi lançada sem a corda de segurança. E morreu.

A tragédia, por si só, já seria suficiente para nos deixar em silêncio. Mas não foi o silêncio que tomou conta das redes sociais. Foi o compartilhamento.

O vídeo apareceu em páginas de notícias, perfis de entretenimento, grupos de WhatsApp e timelines de pessoas que nem conheciam a vítima. Em poucas horas, a morte de uma jovem desconhecida transformou-se em mais um conteúdo entre receitas, memes, propagandas e vídeos de animais engraçados.

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E talvez seja justamente isso que devesse nos preocupar.

Não a existência do registro. Não a divulgação da notícia. Mas a forma como nos acostumamos a assistir à morte dos outros.

Durante grande parte da história humana, a morte era um acontecimento cercado de rituais. Havia velórios, lutos, despedidas e momentos de recolhimento. A morte interrompia a rotina porque nos lembrava da fragilidade da vida.

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Hoje, ela compete por atenção em uma tela.

Assistimos a acidentes, assassinatos, quedas, guerras e tragédias com o mesmo movimento do dedo que usamos para passar para o próximo vídeo. Em segundos, uma vida termina diante dos nossos olhos e seguimos adiante como quem troca de canal.

Não porque sejamos pessoas más.

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Mas porque a velocidade da internet transformou o extraordinário em cotidiano.

O choque dura pouco. A indignação dura menos ainda.

Logo surge outro vídeo, outra tragédia, outra notícia urgente.

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A morte deixou de ser apenas uma experiência humana para se tornar também um produto de consumo.

E talvez o aspecto mais inquietante de tudo isso seja imaginar a pessoa por trás da gravação. Aquela jovem tinha família, amigos, sonhos, planos para a semana seguinte. Havia pessoas que a amavam e que, provavelmente, jamais conseguirão esquecer aquelas imagens.

Enquanto isso, para milhares de desconhecidos, ela se tornou apenas "a moça do vídeo da ponte".

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Quando uma vida inteira pode ser reduzida a poucos segundos de gravação, algo importante se perde pelo caminho.

Perde-se a humanidade.

Talvez não possamos impedir que vídeos como esse circulem. Talvez nem devamos esconder os fatos. Mas podemos escolher a forma como os observamos.

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Nem toda imagem precisa ser compartilhada.

Nem toda tragédia precisa ser assistida.

Nem toda morte precisa virar espetáculo.

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Porque atrás de cada vídeo que viraliza existe uma cadeira vazia na mesa de alguém.

E enquanto continuarmos enxergando apenas as imagens, corremos o risco de esquecer justamente aquilo que deveria importar: a pessoa que existia antes delas.

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